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O bom João

O nome de meu pai era Baptista Nalini. Nasceu em 26 de novembro de 1915, filho de Catharina Boarotto e Jacintho Nalini. Era a primeira geração de brasileiros, cujos pais vieram do Vêneto no final do século XIX, em busca de uma vida melhor na idolatrada América.

O prenome homenagearia o avô materno, Baptista Boarotto. Mas no batismo, o sacerdote observou que isso lembraria a confissão protestante e que o nome cristão deveria ser João Baptista. E assim cresceu o menino e depois jovem, mais conhecido como “João”, embora a família – pais e irmãos – o chamassem “Baptista”.

Herdou do pai a vocação para o trabalho. Cursou a Escola Profissional “Bento Quirino”, em Campinas – junto com Mário Penteado – e se formou modelador. Era perito em fazer modelos de madeira para fundição em ferro e bronze. Àquele tempo, usava-se colocar na residência dos advogados, uma placa indicativa. Meu pai preparava com esmero esses modelos que depois se convertiam nas placas de metal.

Também chegou a esculpir em madeira belas figuras. Ainda conservo um Cristo, encaixado numa base que permite sua mobilização em vários ângulos. Gostava também de fazer caixas de madeira com entalhes, arte da marchetaria. Estão distribuídas entre seus descendentes.

Gostava de futebol. Era “goal keeper”, como se chamava então o goleiro. Teve oficinas de marcenaria, uma delas destruída por incêndio em plena rua Barão de Jundiaí, num imóvel que era de Antonio Zambon, seu sócio e que ocupava uma bela área, que chegava à Rangel Pestana. Depois foi sócio de Arlindo Carbol, na Oficina à rua 1º de Maio, travessa de nossa rua, a 15 de Novembro. Por último, responsabilizou-se pela marcenaria da Vulcabrás, a convite de Josef Pfulg. Trabalhou até o dia em que faleceu, em 16 de janeiro de 1992. Foi ator amador! Vibrava com o teatro!

Nunca deixou de exercer a sua arte “pro bono”, trabalhando no Educandário Nossa Senhora do Desterro, na Escola Paroquial Francisco Telles, no Lar Nossa Senhora das Graças e, principalmente, no Carmelo São José, onde tinha uma sobrinha querida, Irmã Elisabeth da Santíssima Trindade, no século Suzana Nalini Genaro.

Era um homem bom. Tão bom, que foi vítima de muitas vicissitudes geradas por não saber falar “não”. Avalizava títulos para cunhados insolventes, sabendo que iria arcar com o prejuízo. Quando viu protestos em nome de um sobrinho, foi ao Cartório e quitou o débito. “Nunca iria deixar o meu nome de família” na condição de caloteiro!

Adquiria imóveis sem conhecer e era logrado pela esperteza dos estelionatários, alguns dos quais empresas estabelecidas. Aceitava pagamento por trabalho prestado em material que sobrava das construções. Ou terrenos dos quais não se apossava. Título do Jockey Clube de Jundiaí, área em Ilha Comprida, tudo o que lhe parecia interessante para a prole: quatro filhos, que educou até à Universidade. Todos foram alunos da PUC-Campinas, em Direito, Odontologia, Ciências Sociais e Enfermagem.

Esse homem profundamente bom, gostava de plantar, o que fazia em sua casa de origem, à rua Rangel Pestana, depois à rua Bernardino de Campos, onde adquiriu uma área em que construiu sua segunda residência. Os jardins da 15 de Novembro eram bem cuidados e ele plantava lírios que florescessem exatamente em Finados, para ornamentar o túmulo de sua mãe. Chegou a cultivar numa área que ainda possuo, no Caxambu e na pequena propriedade rural hoje de meus filhos, em Lagoinha, no Vale do Paraíba.

Há tanto a ser dito sobre o doce, o terno, o essencialmente bom João Nalini, ou – como consta de seus assentos no Registro Civil – Baptista Nalini. Não há dia em que me lembre dele e o que diria desta vida movimentada e sem descanso que seus filhos vivem hoje. Feliz Dia dos Pais, seu João!

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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