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Seu Jorge revela lado sofisticado em álbum feito ao longo de 16 anos


O título não poderia ser mais adequado. O álbum “The Other Side” traz realmente um lado de Seu Jorge que poucos conheciam. Num projeto que atravessou 16 anos de gravações esporádicas, faixa a faixa, ele apresenta suas versões para canções notadamente “sofisticadas”, brasileiras e estrangeiras, no que parece ser uma declaração ambiciosa. Ele clama que pode mostrar mais do que suas músicas sacudidas, dançantes o suficiente para animar shows em arenas.

Entre suas 11 faixas, muitas são entregues em pacotes intimistas, suaves a ponto de causar estranheza. É evidente que Seu Jorge buscou uma sonoridade mais calma, e a faixa de abertura faz isso ao extremo. A regravação de “Crença”, do álbum de estreia de Milton Nascimento, de 1967, tem um instrumental esquálido, que parece querer deixar toda a força para a voz do cantor. E ele tem um vozeirão.

Seu Jorge começou a gravar essas canções em 2009, em registros possíveis encaixados em sua agenda. Mas há uma unidade sonora irretocável no álbum, provavelmente porque tem parceiros constantes no projeto. Um deles é o músico e arranjador Miguel Atwood-Ferguson, nome com uma rodagem impressionante nos estúdios americanos.

Outro “parça” das antigas é o produtor Mario Caldato Jr., brasileiro com carreira nos Estados Unidos. Eles se conheceram em Los Angeles, em 1998, e Caldato já estava atrás das mesas no álbum de estreia de Seu Jorge, “Samba Esporte Fino”, em 2001. E foi ele quem aproximou Atwood-Ferguson do trabalho.

Embora o repertório tenha clássicos brasileiros e americanos, mesmo que alguns não tão conhecidos de um grande público, é compreensível que a maior curiosidade de quem vai ouvir o álbum recaia sobre “Quando Chego”. Afinal, é uma inédita com vocais divididos com Marisa Monte.

Composta por Seu Jorge, Marisa e Arnaldo Antunes, essa faixa, que poderia entrar harmoniosamente em um álbum dos Tribalistas, é um samba de levada solar e letra esperta. Em versos como “Por aqui a vida anda/ de… va… gar…”, brincando com as pausas.

Outra canção que pode conquistar um público maior é um dos hinos da moçada do Clube da Esquina. “Vento de Maio”, de Márcio Borges e Telo Borges, ganha uma versão de intrincada harmonia vocal entre Seu Jorge e Maria Rita. Como uma das mais conhecidas do repertório do disco, deve emocionar nos shows.

Embora essas duas canções tenham essa incontestável cara de hit, há outra faixa que talvez represente perfeitamente a proposta de Seu Jorge no disco.

Trata-se de “Girl You Move Me”, regravação de uma canção do octeto de soul psicodélico quase funk Cane and Able, de Los Angeles, que lançou seus dois únicos álbuns, magistrais, ambos em 1972: “Relating a Message to You” e “Cane and Able”. A música abre o segundo disco, e em seus oito minutos começa como uma balada esquisita e passa a um batidão funk.

Seu Jorge a adaptou como uma balada mesmo, e fez com essa música algo que é recorrente no álbum. Ele deu uma “desidratada” em algumas canções, como se a busca por uma simplicidade e uma singeleza em músicas tão fortes passasse por uma transformação para um instrumental rarefeito. Há uma busca por alguns vazios.

É necessário elogiar Seu Jorge, Caldato e Atwood-Ferguson, porque isso não foi feito de maneira bruta, simplesmente limando o instrumental. Porque o álbum incorpora orquestrações, às vezes delicadas, às vezes mais vigorosas, que criam uma espécie de trilha sonora cinematográfica, que percorre as canções.

Para a parcela mais pop de seus fãs, Seu Jorge entrega outro grande momento com “River Man”, tirada do repertório do cantor e compositor britânico Nick Drake, morto precocemente em 1974, aos 26 anos.

Seu Jorge respeita o registro original baladeiro de Drake e chama para cantar essa música com ele o americano Beck. O convite a um músico inventivo contribui para o caráter de sofisticação que o álbum procura demonstrar.

O disco expõe algumas predileções musicais de Seu Jorge, de muito bom gosto. São duas de Capinam e Cezar Mendes, “Luz na Escuridão” e “Flor de Laranjeira”, sempre belíssima em qualquer arranjo, e “Caboclo”, de Arthur Verocai e Vitor Martins.

Entre boas propostas e arranjos alternativos que quase sempre funcionam bem, a única coisa a reclamar de “The Other Side” é que Seu Jorge demorou muito para encontrar brechas na agenda para ir ao estúdio de Caldato em Los Angeles para gravar. É um disco fora da trajetória do cantor, e vale a pena ouvir esse outro lado.



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