Lançado em 2006, esta obra foi considerando um dos melhores filmes daquele ano. Cada fotograma poderia ser estudado minuciosamente.
Embora o cinema seja um meio dominado pelo enredo e pelo diálogo, e a história esteja muito presente no que é dito, a imagem também é parte essencial da linguagem cinematográfica. Aliás, por mais que pareça óbvio reforçar isso, cinema — desde a própria etimologia — é imagem em movimento. E o diretor se expressa tanto (ou até mais) pelo enquadramento, pela iluminação, pela cor e pela composição quanto pelo roteiro.
O cinema é muito mais do que palavras, e um exemplo perfeito para percebermos isso é O Labirinto do Fauno, do Guillermo del Toro. Uma obra que não apenas conta uma história, mas a escreve em cada plano, em cada contraste de luz, em cada escolha de cor. Talvez continue sendo uma obra-prima justamente por isso.
Cortes de cor e testes de realidade
Warner Bros. Pictures
Ambientado na Espanha de 1944, o filme alterna entre dois mundos: o realismo brutal do pós-guerra, encarnado pelo Capitão Vidal (Sergi López), e o refúgio fantástico de Ofélia (Ivana Baquero), que tenta escapar da dor no labirinto.
Del Toro e o diretor de fotografia Guillermo Navarro traduzem essa fratura emocional numa paleta de cores em que as cenas ligadas à violência do mundo adulto são tingidas de azuis frios, enquanto as sequências que acompanham Ofélia no reino fantástico são banhadas em dourados quentes.
Isso não é só um recurso estético, mas uma maneira de mostrar quem domina a cena, em que mundo estamos e qual emoção deve prevalecer. A cor não apenas acompanha a história: ela ajuda a escrevê-la.
Como as cores dialogam com os personagens
Warner Bros. Pictures
O filme brinca com mudanças bruscas entre o dourado e o azul para acentuar o choque entre fantasia e realidade. Quando Ofélia cumpre a primeira tarefa e rasteja pelo interior lamacento de uma árvore para enfrentar o sapo, a cena continua iluminada em dourado — como se, mesmo no desconforto, a fantasia ainda mantivesse a promessa de refúgio.
Mas, ao emergir, o tom muda subitamente para azul: a noite caiu, a aventura terminou, e o mundo real volta com seu frio, sua sujeira e sua chuva. A mudança de cor funciona quase como um despertar repentino de um sonho.
Mas o dourado e o azul não explicam tudo. As aparições do Fauno (Doug Jones) e as cenas noturnas no labirinto também são tingidas de verdes terrosos, que conectam a magia ao orgânico, à terra e ao musgo das ruínas. Só que esse verde também beira o azul — a cor do mundo adulto.
O Fauno é inquietante, ambíguo, quase sinistro o bastante para semear dúvidas: estaria ele guiando ou manipulando Ofélia? A paleta de cores sugere que a fantasia não é necessariamente mais segura que a realidade.
E então, no final, o filme condensa toda essa linguagem visual num único gesto: a transição do azul para a explosão dourada do submundo, onde Ofélia renasce como a Princesa Moanna, antes de retornar aos tons frios do mundo real. É um fluxo e refluxo cromático que encapsula como a fantasia pode oferecer significado e consolo — mas sem apagar a brutalidade da realidade. Tudo isso, sem precisar de nenhuma palavra.
Atualmente, O Labirinto do Fauno, não está disponível para streaming.
