Na própria sessão do estudo NHS-Galleri, o doutor Charles Swanton deu essa dimensão: “No Reino Unido, apenas 6% dos tumores são detectados nos exames de rastreamento recomendados à população e, nos Estados Unidos, só 14%. Porém, olhando para o total de casos de câncer nesses países, mais de 70% são daqueles tipos para os quais não existem programas de rastreamento precoce. Será que o exame de sangue não veio justamente para resolver isso?”
Como o sangue entrega a doença
Em 2013, a ciência já sabia que, na corrente sanguínea das gestantes, existiam fragmentos de DNA do bebê. Por isso, em uma gigante americana de testes genéticos, um grupo de pesquisadores analisava o sangue de mulheres grávidas para encontrar esses pedacinhos e, quem sabe, criar um teste para acusar eventuais síndromes raras nos filhos. Só que acabaram encontrando fragmentos bem estranhos em 20 amostras. Eles não pareciam ter vindo de células sadias da mãe e tampouco, da criança. Tinham a “cara” de câncer. E era isso mesmo: tumores dos quais aquelas mulheres nem desconfiavam de tão iniciais.
Dois anos depois, o grupo fundou uma empresa independente na Califórnia, batizada de Grail por causa do Santo Graal: encontrariam o que a medicina sempre buscou, o teste de rastreio multicâncer. Para isso, coletaram o sangue de dezenas de milhares de pessoas com e sem a doença, comparando os fragmentos livres de DNA encontrados na circulação delas.
Ora, as células do seu corpo tem o mesmíssimo código genético, isto é, a mesma receita que, se fosse seguida igualmente por todas, as tornaria idênticas. A diferença de uma célula do seu olho para outra do seu dedão são os genes que estão ligados, feito interruptores, em uma e em outra. O que costuma ligar e desligar esses genes o são pequeníssimas moléculas que se agrupam e, quando se juntam, os cientistas falam em metilação.
“Só que, no DNA de uma célula cancerosa, em vez de a gente ver uma ou outra metilação, como seria o normal, existem várias, porque o tumor é completamente anárquico”, diz o doutor Fernando Moura. Como, de vez em quando, uma célula maligna morre e se espatifa, fragmentos hipermetilados do seu DNA vão parar no sangue. “Neles, os agrupamentos metila parecem um enxame de abelhas em torno da colmeia”, descreve o oncologista.


