Parece que toda semana a mídia esportiva solta uma notícia sobre crise de gestão em algum clube brasileiro. E não é marcação da parte dela, é que os times do nosso futebol realmente passam por
maus bocados.
A dívida total do Corinthians chegou a estimados R$ 2,8 bilhões, e o clube passou por uma escandalosa crise política em 2025 – depois que o ex-presidente Augusto Melo virou réu por associação criminosa e lavagem de dinheiro em um caso que envolvia laranjas supostamente vinculados ao PCC.
O Vasco da Gama, com uma dívida de R$ 928,5 milhões, precisou pedir recuperação judicial no final do ano passado. O clube carioca também teve um grande imbróglio com a sua antiga SAF, a 777 Partners, que foi afastada do comando depois de um processo por fraude na Justiça dos EUA.
O São Paulo também viveu uma dramática crise política. O tricolor virou alvo de investigação da Polícia Civil, com o ex-presidente Julio Casares afastado do cargo e podendo responder por associação criminosa, furto qualificado e apropriação indébita de milhões das contas do clube. Para completar os escândalos internos, dois ex-diretores estão supostamente envolvidos em um caso de exploração clandestina de camarotes no Morumbis, e ao menos dois atletas do time receberam aplicações de canetas emagrecedoras compradas no mercado paralelo.
E esses são só os exemplos mais absurdos. O que não falta é notícia de dívidas bilionárias, atrasos no pagamento de salários, processos na Justiça, recuperações judiciais e outros problemas. Praticamente nenhum clube está a salvo.
Uma pesquisa realizada pela TM20 em parceria com a Brazil Panels apontou que 23% dos torcedores consideram a má gestão o principal problema de seus clubes – e 12% mencionaram as dívidas.
Os fãs de futebol já começaram a entender que, apesar de ser movido pela paixão, é uma gestão boa que faz com que o esporte seja sustentável. A conquista de títulos é resultado de uma administração eficiente, que concilia finanças em dia com competitividade esportiva.
Cartão (de crédito no) vermelho
A situação complicadíssima do nosso futebol pode ser dividida em dois problemas estruturais. Primeiro, temos a questão financeira.
Os clubes brasileiros nunca ganharam tanto dinheiro quanto hoje. Segundo o Relatório Convocados 2025, só os times da Série A movimentaram R$ 10,2 bilhões em receitas em 2024, o maior valor já registrado. Essa grana vem, principalmente, dos patrocínios milionários de casas de apostas, vendas de jogadores para clubes estrangeiros, contratos de transmissão dos jogos e valorização maior de ativos.
Mas, se tem muito dinheiro entrando, tem ainda mais dinheiro saindo. Nem a receita recorde seria capaz de estancar os gastos, também recorde, de 2024. Os clubes da divisão fecharam aquele ano com R$ 14,6 bilhões acumulados em dívidas. Por mais que a receita esteja crescendo, a dívida total aumenta ainda mais depressa. Com o montante que entra no caixa, os clubes preferem fazer contratações novas e outros investimentos em vez de quitar pendências e botar as finanças em dia. Em 2024, os clubes gastaram R$ 5,1 bilhões só de custos com salários. Em contratações, foram mais R$ 3,4 bi.
E, muitas vezes, o dinheiro usado para trazer atletas acaba vindo de empréstimos. O clube acaba se afundando ainda mais nas dívidas, em busca de um retorno financeiro de futuro imediato que é incerto.
Em segundo lugar, temos a questão mais complicada dos problemas de gestão.
Aqui, tudo fica um pouco mais sensível. Hoje, a grande maioria dos clubes brasileiros (74%) funciona no modelo de associação. Diferente de uma empresa, os times não têm um CEO – eles têm um presidente que é eleito por um conselho e cumpre mandatos.
Como esse dirigente não é o dono do capital, é muito mais fácil para ele gastar muito dinheiro em busca de um desempenho competitivo melhor – e, por consequência, garantir sua popularidade e reeleição. A dívida vai ficar para o sucessor, sem nenhum risco para o seu próprio bolso.
Por causa disso, os presidentes não se preocupam tanto em pegar empréstimos para bancar as contratações caras. Mesmo que paguem os juros bancários, multas trabalhistas e outros valores, a dívida principal permanece consumindo o orçamento do ano.

De novo, isso é fruto da natureza do cargo. Os presidentes de clubes e diretores financeiros geralmente são conselheiros políticos, e não executivos com experiência de gestão – são amadores, podemos dizer, que se apoiam na politicagem nos bastidores, e não em processos institucionais.
A cultura do futebol brasileiro privilegia resultados no curto prazo. Os clubes operam de um jeito singular, diferente de empresas: as métricas de sucesso são troféus, e não lucro e sustentabilidade. Na visão do torcedor, pouco adianta ir atrás de austeridade financeira se o futebol do time está fraco.
Assim, o ciclo da dívida continua girando. As receitas podem até bater recordes, mas, quando as dívidas também não param de crescer, isso não é suficiente. O custo dessa incompetência costuma ser bilionário.
A ausência de políticas de compliance, governança e transparência dentro dos clubes abriram brechas para abusos administrativos e financeiros. Casos escandalosos podem, inclusive, comprometer a imagem do time frente a patrocinadores, que são uma das poucas formas de receita recorrente.
Mas ainda existem bons exemplos de gestão eficiente nesse mar revolto de caos administrativo.
O todo poderoso Mirassol Futebol Clube
Se eu te contasse a história de uma empresa que, até sete anos atrás, não tinha nenhuma relevância no seu setor, mas que, com um projeto de execução de longo prazo, uma governança estruturada e profissionais que se identificam com o projeto, conseguiu virar referência nacional, você consideraria isso um case de sucesso?
Foi exatamente o que aconteceu com o Mirassol Futebol Clube. Em 2019, o time do interior paulista não tinha divisão nacional. Já em 2025, exatos cem anos depois da fundação do clube, o Mirassol chegou, pela primeira vez, à elite do futebol brasileiro.
Pelo aniversário, o ano já era histórico para o Leão do interior, mas o sonho de disputar a Série A se transformaria em algo muito maior.
No início do campeonato, a equipe era colocada como uma das mais prováveis de voltar para a Série B. Contrariando todas as expectativas, o Mirassol terminou o Brasileirão em quarto lugar, foi o terceiro time com mais gols marcados e com menos derrotas, até ficou sem perder nenhum jogo na sua cidade. O ano começou com o modesto desejo de se manter na elite do futebol, e terminou com uma classificação inédita para a Libertadores, o torneio mais importante do futebol sul-americano.
O time-sensação do futebol brasileiro viveu um grande conto de fadas no seu centenário. Mas não foi nenhum desejo mágico e varinha de condão que transformaram o Mirassol em um competidor sério da noite para o dia. O ano dourado do clube foi consequência de um projeto planejado no longo prazo, sustentabilidade financeira e uma gestão eficiente.
A diretoria investiu em uma infraestrutura duradoura e importante para o time: a construção de um centro de treinamento.
E foi no longo prazo mesmo. Começou em 1995, quando Edson Ermenegildo assumiu a presidência e, ao lado do vice-presidente e colaborador, Juninho Antunes, começaram a construir a cultura do clube: transparência, seriedade e compromisso.
Mas o pontapé inicial da nova trajetória do Mirassol foi em 2017. Na época, o São Paulo acertou a transferência do atacante Luiz Araújo para o Lille, da França, por R$ 38 milhões. A maior parte desse dinheiro ficou com o São Paulo, mas uma pequena quantia caiu na conta do Mirassol, que foi o clube que revelou o jogador.
A transação rendeu, mais especificamente, R$ 6,4 milhões para o bolso do pequeno time do interior. Com esse valor, a diretoria investiu em uma infraestrutura duradoura e importante para o desenvolvimento do time: a construção de um centro de treinamento.
A chefia do Mirassol entendeu que ter um CT próprio, com uma boa estrutura e instalações, daria melhor preparo aos jogadores e aumentaria o desempenho competitivo. Era um investimento caro para um time pequeno, mas que daria frutos no futuro.
Esse caso é um ótimo resumo da filosofia de gestão do clube. Desde então, o principal lema do Mirassol é conciliar gestão responsável com competitividade. Se o cenário do futebol brasileiro é tomado por notícias de dívidas altíssimas e processos trabalhistas, o Mirassol se orgulha de não ter nenhuma pendência financeira.
As contas do clube são administradas com muito cuidado, e o time só investe com base na própria receita. A folha salarial da equipe em 2025, por exemplo, era de apenas R$ 5 milhões – a segunda menor da competição. Isso porque o time não tem um grande investidor externo, e depende muito do dinheiro que vem das premiações, cotas de transmissão e patrocínios.
Mas, para além da parte financeira, o Mirassol tem um diferencial administrativo importante, que é a continuidade do projeto. A gestão de futebol deles não tem nenhum segredo: basta fazer o básico, mas muito bem-feito.
“Aqui no Mirassol funciona assim. O Juninho já vem fazendo isso com maestria ao longo desses quase 30 anos à frente do Mirassol. Todos que chegam aqui já sabem a linha que o clube trabalha e pretendemos seguir da mesma forma. O clube é muito bem gerido há muito tempo”, afirma Paulinho, ex-jogador, ídolo do Corinthians e, hoje, executivo de Futebol do Mirassol.
Em entrevista à Você S/A, Paulinho afirmou que uma das maiores dificuldades de gestão no futebol brasileiro hoje é exatamente a falta de convicção no trabalho. Ter uma metodologia contínua, que consiga sustentar os profissionais e passar segurança para eles é uma tarefa “difícil, mas não impossível” e que ajuda essas pessoas a “performar da melhor forma”.
“O futebol brasileiro é de resultados, e não de processos de longo prazo. A forma que o Mirassol sempre trabalhou, e isso não é de agora, é dar todo esse respaldo para os profissionais. Isso consequentemente afeta todo mundo do clube, porque tem uma certa segurança que talvez em alguns lugares eles não teriam”, afirma o executivo.
Por que isso importa?
Mesmo sem usar essa palavra, Paulinho destacou várias vezes a importância da governança dentro da gestão de um clube. Segundo ele, ser leal, honesto e objetivo já te coloca um passo à frente
“Eu sempre bato na tecla de ter lealdade, ser transparente com as pessoas envolvidas no processo, independente das circunstâncias. Eu acho que já é um ótimo caminho para que, lá na frente, tanto a pessoa como a instituição possam ter bons resultados”, afirma.

Isso é mais claro em empresas tradicionais, mas a governança é um pilar importantíssimo para uma administração saudável. Tornar os processos e decisões mais claros resulta em maior confiança e alinhamento entre todos os envolvidos – no caso de um time de futebol, vai além da diretoria e afeta diretamente os jogadores, torcida e patrocinadores.
Com práticas de governança, os clubes podem evitar fraudes, desperdícios financeiros, corrupção e má administração. Responsabilidade de gestão vai ser um critério cada vez mais usado para investidores definirem onde vão colocar seu dinheiro.
O vice-presidente da CBF, Ricardo Gluck, afirmou que “o futebol brasileiro só conseguirá alcançar um novo patamar de excelência se investir em governança, transparência e planejamento de longo prazo”. E isso não seria inovar, seria buscar o empate.
No final das contas, o produto que está em jogo é a competição, e não os times individualmente. Trazer práticas melhores para o futebol do país é atrativo para todos. Não só para os clubes, mas também para os patrocinadores, quem faz a transmissão, para os atletas e, claro, os torcedores.
“Os clubes precisam entender que eles são sócios do mesmo produto. Os principais mercados se desenvolveram por causa disso. A Premier League, por exemplo, é uma empresa privada com clubes que são sócios daquela empresa. Ou seja, eles competem dentro de campo, mas sabem que, se o produto for melhor, todos vão ganhar. A gente está nesse momento de discussão no futebol brasileiro. O produto não é o clube, é a competição. Isso faz com que todos cresçam.”
Quem diz isso é Pedro Daniel, graduado em Administração de Empresas pela PUC/SP, com mestrado em Governança para Entidades Esportivas pela Universidade Limoges, na França. Ele também é professor no curso de gestão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Com práticas de governança, os clubes podem evitar fraudes, desperdícios financeiros, corrupção e má administração.
“São várias peças de um quebra-cabeça que a gente está construindo, talvez, não na velocidade que gostaríamos, mas já estamos vendo essas peças se encaixarem”, afirma Pedro. Um campeonato bem organizado é um ambiente mais propício para negócios. Ele fica mais atrativo e valoriza todos os envolvidos.
O futuro do futebol brasileiro
Já está bem claro que o nosso futebol, no momento, precisa tentar diminuir o atraso. Outras ligas já saíram na frente, então precisamos igualar o placar. Como fazer isso? Já passou da hora de fazermos algumas substituições na escalação.
Os clubes precisam abandonar a visão de curto prazo e começar a enxergar com mais perspectiva. As decisões tomadas só olhando para a quarta-feira e o domingo nem sempre são as melhores para uma empresa nesse prazo mais extenso.
O mercado da bola já começou a entender que implementar uma gestão profissional, seja em um clube-empresa ou associação, causa impacto positivo dentro de campo. Órgãos reguladores, como a CBF, ajudam a formalizar essa profissionalização com a Lei da SAF e a aprovação do fair play financeiro. Além de melhorar o produto final, esses progressos entregam mais segurança jurídica para investidores.
“Você acaba forçando com que os clubes se adequem a essa regulação e, como consequência, eles vão ter uma gestão mais transparente, mais sustentável financeiramente. Isso traz benefícios não só para os times, mas para o ambiente”, defende Pedro.
Esse jogo já está virando. Conforme clubes dão cada vez mais importância a uma gestão responsável, surgem novos profissionais com experiência de administração para guiar os times nesse desafio de organizar a casa.
Pedro Daniel é um exemplo disso. Recentemente, ele começou uma nova missão dentro do mundo do futebol: colocar todo o seu conhecimento técnico sobre gestão esportiva em prática como o novo CEO do Clube Atlético Mineiro.
Mesmo estando há apenas dois meses no comando do Galo, Pedro Daniel já apontou um dos grandes desafios do cargo: provar que o futebol pode jogar lado a lado com a gestão.
“O futebol não é muito diferente de um modelo de negócios. O que os clubes estão começando a entender é que a estrutura, o departamento de futebol, não é um mundo à parte”, conta. “Isso já é muito normal na Europa, mas aqui a gente está quebrando esse paradigma ainda. O futebol faz parte, aqui é uma empresa de futebol.”
E, assim como toda empresa, os clubes brasileiros têm ativos importantes. Valorizá-los é algo essencial para a austeridade do negócio.
Mas, diferente da maioria das empresas, os times são parte de algo grande, que afeta 79% dos brasileiros: o amor pelo futebol. Segundo pesquisa “O Maior Raio X do Torcedor”, essa é a porcentagem de pessoas que afirmam ter um clube do coração.
Mexer com essa paixão é uma coisa delicada. Ninguém quer ver o próprio time largado às traças. Mas, para que o futebol brasileiro cresça em qualidade, em espetáculo e em magnitude, é preciso mudar. E, se você ama o futebol, você tem de apoiar essa mudança.
“A gente precisa começar a detectar algumas coisas e tentar mudar. Afinal de contas, se nós não conseguimos consertar algumas falhas que temos no futebol brasileiro, quem é que vai correr atrás? Ninguém”, alerta Paulinho. “Então isso tem que partir de nós. Não só do dirigente, não só do treinador, não só do presidente, não só dos jogadores. Tem que partir de todos aqueles que amam o futebol, que querem ver o futebol brasileiro evoluindo – o torcedor, principalmente.”
O Brasil já é o país do futebol. Melhorando a gestão esportiva, podemos mostrar ao mundo quem é o verdadeiro dono da bola.

Esta é a matéria de capa da edição número 319 (fevereiro e março) da Você S/A. Clique aqui e confira os outros conteúdos da revista digital, disponível para assinantes no GoRead.


