Considerado uma obra-prima absoluta do cinema de terror, Stephen King jamais perdoou Stanley Kubrick por sua visão de O Iluminado.
Hoje considerado um dos maiores clássicos do terror psicológico e do cinema de horror, O Iluminado continua sendo uma fonte de frustração para seu criador original. Embora o filme dirigido por Stanley Kubrick, lançado em 1980, seja frequentemente citado entre as obras mais influentes do gênero, Stephen King nunca escondeu sua decepção com a adaptação de seu romance.
O Iluminado: Uma obra-prima para o público, uma decepção para seu autor
Poucos filmes de terror alcançaram um consenso tão amplo quanto O Iluminado. Diversas cenas se tornaram icônicas e marcaram definitivamente o imaginário popular. Mas, por trás desse reconhecimento quase unânime, existe uma discordância importante: a do próprio Stephen King.
Acostumado a ver seus livros ganharem versões para o cinema, o escritor estadunidense jamais aceitou completamente a forma como Kubrick reinterpretou sua história. Ainda na época do lançamento, King já demonstrava suas reservas. Em uma entrevista ao apresentador David Letterman, em 1980, ele fez uma avaliação ambígua sobre o trabalho do diretor.
Acho que Kubrick fez um trabalho maravilhoso, mas tenho sentimentos mistos. Há muitas coisas no filme que considero perfeitas e brilhantes. Em alguns momentos, sinto como se tivesse entregado uma granada a Stanley Kubrick e ele heroicamente se jogado sobre ela
A adaptação é considerada distante do romance
Com o passar dos anos, as críticas de Stephen King ficaram ainda mais duras. Após 13 anos de sua estreia, ele afirmou que O Iluminado representava uma grande oportunidade desperdiçada, principalmente porque Kubrick teria priorizado sua própria visão artística em vez da essência do livro.
“Um filme que se afastou consideravelmente do meu livro e fracassou foi O Iluminado. E considero que ele fracassou porque Kubrick queria fazer o filme de terror definitivo. Ele não quis dedicar tempo para compreender a atmosfera do romance. Foi um fracasso causado pela arrogância.”
HBO Max
O termo utilizado por King faz referência ao conceito grego de hubris, associado ao excesso de orgulho e à sensação de superioridade. O conflito entre os dois não se limitava a pequenas mudanças na narrativa. Kubrick decidiu abandonar o roteiro escrito por King e trabalhar em uma nova versão ao lado da escritora Diane Johnson, utilizando apenas alguns elementos do romance para construir sua própria interpretação da história.
“O Iluminado de Kubrick era muito frio”
Ao longo dos anos, o autor detalhou com mais precisão os aspectos que mais o incomodaram na adaptação. Segundo ele, o filme perdeu uma característica fundamental de suas obras: a humanidade dos personagens e a carga emocional que costuma atravessar seus romances.
“Acredito que uma das coisas que mais atraem os leitores aos meus livros é a sensação de acolhimento, de fazer parte da história. O Iluminado de Kubrick era muito frio. […] No meu romance, o hotel pega fogo; no filme, ele congela. […] Shelley Duvall, como Wendy, está ali apenas para gritar e parecer tola, e esse não é o tipo de mulher sobre o qual eu escrevo.”
HBO Max
A crítica dura não foi apenas para a personagem Wendy Torrance, mas também refletia o descontentamento de King com o tom geral da produção, que ele considerava completamente diferente da atmosfera imaginada ao escrever o livro.
Apesar de todas essas críticas, O Iluminado segue sendo uma das adaptações mais celebradas da obra de Stephen King e um dos filmes de terror mais importantes da história do cinema — e que hoje está disponível na HBO Max.
Ainda que seu autor continue considerando o resultado um fracasso, para os fãs do gênero, o clássico permanece como uma obra indispensável e segue conquistando novas gerações mais de quatro décadas após seu lançamento.


