No armário da influenciadora queniana Nana Owiti, dezenas de camisas do Arsenal atestam sua paixão pelo clube. Há mais de 20 anos, quando vários jogadores negros brilhavam na equipe de Londres, a popularidade dos “Gunners” na África disparou. E ainda é enorme.
“Henry fez com que eu me apaixonasse instantaneamente pelo Arsenal porque ele era muito bonito. Depois, olhei de novo e vi Sol Campbell e seu corpo musculoso. E, de repente, Kolo Touré… Todos esses jogadores, todos esses jogadores negros”, disse essa mulher na casa dos 30 anos, que tem 3 milhões de seguidores nas redes sociais.
A camisa número 14 de Thierry Henry, jogador francês com raízes antilhanas (Guadalupe e Martinica), foi a primeira do Arsenal que entrou em sua coleção.
As origens dos atletas daquele Arsenal do início do século são muito diversas. Sol Campbell é um britânico nascido em Londres, filho de pais jamaicanos, e Kolo Touré é marfinense.
Também havia Ian Wright, outro britânico de origem jamaicana, o nigeriano Nwankwo Kanu e o togolês Emmanuel Adebayor. E outros franceses, como Patrick Vieira, nascido no Senegal e com ascendência cabo-verdiana, e Nicolas Anelka, francês-martinicano, entre outros.
“Não era algo racial, mas sim um sentimento de pertencimento”, afirmou Nana Owiti.
Em um encontro com a reportagem em Nairóbi durante um jogo do Arsenal, o zimbabuano Leslie contou uma história semelhante. “Eu tinha 12 anos. O Arsenal jogava muitas vezes com 9 jogadores negros entre os 11. Eu podia me identificar com eles”, explicou.
“Eu gosto do Arsenal por causa do Arsène Wenger”, acrescentou, citando o técnico francês que comandou o clube por mais de 20 anos, de 1996 a 2018. “Ele era um revolucionário, um visionário!”
“Wenger é um fator-chave” na popularidade do Arsenal no continente africano, visto que apostou na pluralidade e em um elenco aberto ao mundo, destacou Emeka Cyriacus Onyenuforo, fundador e presidente da associação de torcedores do Arsenal na Nigéria, um país no qual o clube foi especialmente popular durante a passagem de Kanu (1999-2004).
Muitos entendem que “o Arsenal dá prioridade aos jogadores africanos” e por isso passam a torcer por esta equipe, observou Akalework Amde, presidente das associações de torcedores dos “Gunners” na Etiópia.
Ganhar ajuda. E o Arsenal de mais de duas décadas atrás é muito lembrado por suas conquistas: faturou três títulos do Campeonato Inglês (1998, 2002, 2004) e teve uma sequência de 49 partidas de invencibilidade em 2003-2004.
Em 2006, disputou pela primeira vez a final da Champions League, na qual perdeu por 2 a 1 para o Barcelona. No dia 30 de maio, jogará a segunda, contra o Paris Saint-Germain.
A época de ouro do Arsenal no início do século 21 coincidiu com a expansão internacional da Premier League (o Campeonato Inglês) e a sua chegada às televisões africanas por meio do canal sul-africano por satélite Supersport.
Na versão atual do time, 5 dos 11 atletas escalados na vitória sobre o Atlético de Madrid que definiu a classificação à decisão da Champions eram negros –entre deles o brasileiro Gabriel Magalhães e o inglês Myles Lewis-Skelly, de origem caribenha. William Saliba é filho de camaronesa, Eberechi Eze tem pai e mãe nigerianos, assim como Bukayo Saka, autor do gol do triunfo por 1 a 0.
“O meu nome é Bukayo Moses Ayoyinka Temidayo Saka. Tenho muito orgulho dele e das minhas raízes nigerianas. Os meus pais cresceram na Nigéria, e muitos dos valores deles foram passados para mim”, declarou.
Se a forte presença de jogadores negros no elenco foi a semente da paixão pelo time inglês na África, “agora o time é amado pelo que ele é”, afirmou Robbie Lyle, fundador da Arsenal Fan TV, um canal que viaja pelos cinco continentes para conversar com torcedores do clube. “O que ele é” é um time que está na luta pelo título europeu depois de 20 anos.
Lyle observou que é muito fácil cruzar com alguém vestindo a camisa do Arsenal na África.
Um possível primeiro título de campeão da Europa desperta grande entusiasmo na África, mas antes o Arsenal pode conquistar o seu primeiro Campeonato Inglês em 22 anos. O clube londrino tem cinco pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o Manchester City, já na reta final da disputa, embora tenha um jogo a mais.
