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Conheça a banda Boards of Canada, que lança ‘Inferno’, primeiro álbum em 13 anos


Em abril, alguns clientes habituais da loja online da gravadora inglesa Warp receberam em casa estranhos pacotes. Em cada um deles havia uma velha fita VHS, sem rótulo ou capa. A fita continha imagens granuladas de velhos filmes, sons de transmissões de rádio cheios de ruído e vozes empilhadas umas sobre as outras. Alguns fãs mais obsessivos chegaram a desmontar a fita em busca de alguma pista sobre sua origem.

Dias depois, misteriosos cartazes apareceram em locais públicos em Londres, Los Angeles, Tóquio e Nova York. Eles continham imagens parecidas com as das fitas, além de um símbolo hexagonal. E todo fã da Warp —casa de Aphex Twin, Autechre, Squarepusher e outros nomes da música eletrônica experimental—, sabe que o nome do estúdio do duo Boards of Canada, localizado numa área remota na Escócia, é Hexagon Sun, ou sol hexagonal. Aquilo só podia ser obra do Boards of Canada.

Em 16 de abril, o grupo publicou no YouTube um vídeo de pouco mais de três minutos, “Tape 05”. Era a primeira música inédita da dupla desde o lançamento do LP “Tomorrow’s Harvest”, 13 anos atrás. Poucos dias depois, a Warp anunciou para 29 de maio o lançamento do quinto LP do grupo, “Inferno”.

O anúncio provocou um frenesi entre os obsessivos cultuadores do Boards of Canada, uma das bandas mais crípticas da cena eletrônica, cujos lançamentos são sempre cercados de mistérios e os discos, repletos de alusões a cultos misteriosos, magia, conspirações e todo tipo de segredo.

Tudo nela é misterioso. Por que um grupo escocês tem um nome que faz alusão a outro país? Na verdade, o nome é uma homenagem ao National Film Board do Canadá, um braço governamental responsável por documentários de natureza aos quais os irmãos Michael Sandison e Marcus Eoin assistiam quando o pai, que trabalhava em construção civil, levou a família para uma temporada em Calgary, no Canadá.

Os moleques ficaram fascinados com as trilhas sonoras dos filmes, que usavam elementos lo-fi como gravações de campo de barulhos de animais, vento e elementos da natureza.

Ainda adolescentes, Michael e Marcus começaram a experimentar com gravações em fitas cassete, criando colagens sonoras que misturavam teclados dos anos 1970 e 1980 a sons que eles gravavam da TV e rádio. Em antigas entrevistas, os dois diziam ter centenas de músicas prontas e guardadas.

O Boards of Canada não tem uma carreira normal. Os irmãos raramente dão entrevistas e quase nunca tocam ao vivo. A última apresentação aconteceu em abril de 2001 no festival alternativo All Tomorrow’s Parties, na Inglaterra, e buscas na internet por gravações de shows resultam em um total de três registros. Os irmãos vivem em Pentland Hills, uma cadeia montanhosa ao sul de Edimburgo, e vêm criando, há quase quatro décadas, uma música inclassificável, que às vezes lembra trilha sonora de filmes de terror dos anos 1970 e, em outras, traz uma doçura infantil.

O método de composição do Boards of Canada é peculiar. Em 2013, os irmãos concederam uma entrevista curta por email ao The New York Times.

“Uma técnica que gostamos de usar é samplear nós mesmos tocando instrumentos reais e depois destruir os sons”, disse Sandison. “Passamos dias gravando coisas diferentes em instrumentos de sopro, guitarras, baixos e sintetizadores; depois passamos esses sons por pilhas de hardware destrutivo, e assim criamos sons irreconhecíveis”.

Some-se a isso gravações de diálogos tirados de antigos filmes, registros de sons da natureza e improvisos feitos em cima de bases pré-gravadas. O resultado é uma música tão linda quanto fantasmagórica.

Fãs do Boards of Canada passam a vida debatendo os temas de cada um dos álbuns da banda. O primeiro, “Music Has the Right to Children” (1998), é considerado uma obra-prima da eletrônica “ambient” e uma verdadeira declaração de princípios da banda, apresentando ao mundo o originalíssimo som dos irmãos.

O LP “The Campfire Headphase” (2005) incorporou mais instrumentos acústicos e tem um clima “pastoral” e onírico. Já o EP “In a Beautiful Place Out in the Country” (2000) aborda o sangrento conflito ocorrido em 1993 na cidade de Waco, no Texas, entre a seita Ramo Davidiano, liderada pelo guru David Koresh, e o FBI, que resultou na morte de cerca de 80 pessoas.

Às primeiras audições, o novo disco, “Inferno”, parece um dos mais pessimistas e sombrios trabalhos do Boards of Canada. Além do próprio nome do LP, títulos de canções como “Memory Death” —morte da memória—, “Blood in the Labyrinth” —sangue no labirinto— e “All Reason Departs” —toda razão se vai—, insinuam que Michael Sandison e Marcus Eoin não veem o presente com muita esperança.

Musicalmente, o disco parece mais orgânico e soa mais pesado que trabalhos anteriores, com batidas de trip-hop à Massive Attack sobre bases que chegam a lembrar o “shoegaze” de grupos como My Bloody Valentine.

Agora, em fóruns, incontáveis fãs se debruçam sobre os significados ocultos de cada voz sampleada em cada uma das 18 músicas do disco e de seus 70 minutos de música.

Ninguém pode prever se “Inferno” será lembrado, daqui a alguns anos, como um dos melhores momentos do Boards of Canada, mas certamente seu lançamento reacendeu em muita gente a esperança de que música nova ainda pode importar para muita gente.



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