Na segunda metade da década de 1970, Paulo Rafael (1955-2021) e Zé da Flauta viviam anos mágicos. O guitarrista e o flautista, ambos pernambucanos, integravam a banda de Alceu Valença e moravam no Rio de Janeiro. Pela primeira vez, eram tratados como profissionais, músicos de verdade.
Em 1982, com o álbum “Cavalo de Pau” e a música “Tropicana”, as vendas de discos de Alceu foram dos milhares aos milhões. Sua agenda de shows lotou. Paulo e Zé ainda tinham algum tempo sobrando quando fizeram o álbum “Caruá”, dois anos antes, uma pérola da psicodelia nordestina que acaba de entrar no streaming, quase 50 anos após o lançamento.
Os próprios músicos bancaram as mil cópias originais do disco. Mais ou menos metade eles venderam nos shows de Alceu, e o resto foi dado a jornalistas e amigos. “Ainda levamos um para o George Pompidou, em Paris, e outro para a Casa da Música, em Portugal”, diz Zé da Flauta. Esta é a primeira vez que a obra alcança o grande público.
Antes, o álbum estava acessível apenas em arquivos piratas de baixa qualidade na internet e nos raros LPs de 1980 ainda preservados. A versão atual de “Caruá”, remixada e remasterizada, também foi prensada novamente em vinil pela Três Selos/Rocinante.
É o único disco assinado pela dupla. Paulo foi guitarrista e fiel escudeiro de Alceu até morrer, em 2021. Zé integrou o Quinteto Violado, a SpokFrevo Orquestra e tocou em quase todos os álbuns da cena psicodélica do Recife. Quando se conheceram, eles eram apenas adolescentes.
Com o cartunista Lailson Cavalcanti (1952-2021), Paulo e Zé formaram a banda Phetus, em que misturavam rock com música medieval, em 1972. O grupo só durou uns meses, mas foi a porta de entrada da dupla no “udigrudi” da capital pernambucana.
Batizada depois com esse nome —um abrasileiramento de “underground”—, a cena rendeu discos psicodélicos como “Paêbirú”, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, e a banda Ave Sangria, entre outros. Também influenciou diretamente os três primeiros álbuns de Alceu.
No fim de 1974, Zé da Flauta tocava com o guitarrista Robertinho do Recife, enquanto Paulo Rafael integrava o Ave Sangria. O grupo, anistiado há três meses pelo governo federal, havia acabado de ter seu primeiro e histórico disco retirado das lojas pela ditadura militar.
Quando Alceu foi chamado para tocar no festival Abertura, no Rio, ele montou uma seleção do “udigrudi” para acompanhá-lo. Além de Paulo e Zé, vieram Lula Côrtes, Zé Ramalho e todos os instrumentistas do Ave Sangria.
“Ele tinha sido contratado pela Som Livre e ia a um festival da Globo —uma máquina poderosa”, diz Zé da Flauta. “Formou uma banda inédita, com o que tinha de melhor em cada um. Alceu sempre soube escolher com quem tocar, tem essa vocação.”
Dali, o cantor partiu para sua fase roqueira e psicodélica, ainda que recuse esses rótulos. São dessa era os álbuns “Molhado de Suor”, “Espelho Cristalino” e a temporada de shows “Vou Danado pra Catende“, no teatro Tereza Rachel, registrada no disco “Vivo!”.
Para Zé da Flauta, Alceu é “o maior e mais original roqueiro do Brasil”. “Como pode o cara ter cabelo de roqueiro e não ser roqueiro? Fazer poesia como roqueiro, se vestir, ter postura, atitude de roqueiro, e não ser roqueiro? Os discos dele dos anos 1970 são rock puro.”
O saxofonista Beto Saroldi viu um show no Tereza Rachel e, diz Zé da Flauta, “gostou tanto que ia todo dia”. Fã de jazz, virou amigo da dupla de “Caruá”.
Paulo e Zé batiam ponto no apartamento de Saroldi na Tijuca. “A gente ficava lá inventando coisas, gravando no cassete, ouvindo John Coltrane e Jethro Tull”, diz o flautista. A dieta musical tinha Miles Davis, Joe Farrell, Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Quarteto Novo e os discos de jazz da CTI Records, selo do dinamarquês Creed Taylor.
Em sua última entrevista, ao jornalista Rogério Medeiros, do livro “Valsa dos Cogumelos”, Paulo comentou o período. “Tínhamos uma afinidade musical muito grande, curtimos as mesmas coisas. E vivíamos nos divertindo, porque Zé é um piadista de primeira e eu era seguidor das piadas dele.”
“Caruá” foi criado entre um show e outro de Alceu, em jams na casa de Saroldi ou com a dupla brincando em violão e flauta. Também foi gravado em parcelas, no estúdio Clave, que Zé abriu no Recife, na época ainda em obras.
O flautista diz que o engenheiro de som —seu primo João— fez milagres. “Gravou voz no corredor e amplificador de guitarra dentro do banheiro. Usou colchão de palha como biombo para secar o som. Era malucão.”
As gambiarras incluíram uma tampa de lata de leite no bumbo da bateria, “para dar impacto”. O pedal do instrumento, diz Zé, era, na verdade “uma cabeça de marcha de fusquinha”. O objetivo era atingir os graves da disco music. “Era tudo era precário, então tinha que inventar.”
Vários músicos estão no disco. Lula Côrtes toca seu tricórdio em “Amanhecer” e “Gôta Serena”. Dos três bateristas, Israel Semente Proibida, ex-Ave Sangria, é quem mais aparece, com quatro músicas. O alagoano João Lyra, que tocou com o jovem Djavan na banda LSD, gravou guitarra em três faixas.
Paulo e Zé aproveitaram amigos que foram a Olinda para o Carnaval e os levaram ao estúdio. Antônio Sant’Anna, que tocava com Tim Maia, gravou baixo em quatro músicas. Beto Saroldi fez o sax de “Baião da Barca” e David Ganc tocou flauta em “Zé Piaba”.
Duas participações são curiosas. Um iniciante Lenine, que trabalhava no estúdio fazendo jingles, gravou percussão em várias faixas e cantou na única do álbum com vocais, “Zé Piaba”. Ele fez um dueto com Alceu, que teve sua voz cortada da obra após um pedido da gravadora.
“Ele já tinha cantado e tocado no disco de muita gente. Não queriam que fizesse participação no de mais ninguém”, afirma o flautista. “Só que quando soubemos disso, o disco já estava mixado. Tivemos que voltar ao estúdio e fazer aquelas mixagens na correria que nunca dão certo. Só agora demos uma corrigida, mas na época a voz ficou muito alta. Lenine cantou sozinho.”
A mistura de rock e jazz com os ritmos locais, como baião, frevo e maracatu, para Zé da Flauta, não era um plano elaborado. “O que a gente fazia era na maior naturalidade. Não tinha ‘vamos botar um baiãozinho aqui, um jazzinho aqui’. Era tão puro que a gente sequer sabia que estava participando de um movimento.”
Para o jornalista José Teles, autor do livro “Do Frevo ao Manguebeat”, “Caruá” é parte do ciclo de discos independentes pernambucanos daquela década, mas já não integraria o movimento “udigrudi” ou a psicodelia nordestina. Para ele, é um “projeto de música nordestina progressiva”. Em seu site Teles Toques, afirmou que Paulo e Zé “já estavam bem além da fase bicho grilo”.
“A gente não passou a fase bicho grilo, só mostrou que bicho grilo podia evoluir também”, diz o flautista. “Continuamos tendo a cabeça de bicho grilo, mas evoluímos na organização das coisas, no conceito musical e de vida. A gente se casou, constituiu família. Bicho grilo também pode educar seus filhos.”
Aos 71 anos, Zé da Flauta se emociona ao se lembrar de quando descobriu “toda uma geração aqui do Recife” fazendo música como ele —ou seja, fundindo naturalmente o som de Pernambuco com o rock. E derrama lágrimas ao comentar os anos lisérgicos com Paulo e Alceu.
“Alceu tinha uma ancestralidade bonita, verdadeira. Não tem nada falso ali. E isso nos inspirava. Quando você ouve a flauta naquelas músicas, não era eu, era a minha alma toda, sabe? Vejo flautistas hoje terem dificuldade em interpretar aquilo que toquei. Tocam as notas direitinho, mas interpretar a frase é difícil —devido a toda a carga emotiva.”


