Javier Ambrossi e Javier Calvo saíram vencedores com o prêmio de Melhor Direção do festival francês com filme sobre identidade queer e o poeta García Lorca, Penélope Cruz no elenco e Almodóvar como coprodutor.

La Bola Negra estreou no Festival de Cannes, levou o premio de Melhor Direção na categoria principal e em sua primeira exibição recebeu mais de 20 minutos de aplausos. Ambientado na Espanha em 1932, 1937 e 2017, o filme acompanha três homens de diferentes gerações cujas histórias se conectam. Ao explorar o que significa ser gay em contextos históricos distintos, revela como vivências individuais podem atravessar e influenciar gerações.
O AdoroCinema participou de uma conversa com os diretores premiados e com o elenco do filme. Javier Calvo e Javier Ambrossi, que conduzem La Bola Negra, dividiram o prêmio com Pawel Pawlikowski, diretor de Fatherland.
A ideia de La Bola Negra começou com um texto que Javier Calvo leu durante um voo para se distrair, La Piedra Oscura, peça de Alberto Conejero sobre a relação entre Rafael Rodríguez Rapún, último amor de Federico García Lorca, e o poeta. “Comecei a chorar muito. Mandei mensagem para ele (Javier Ambrossi) dizendo que tinhamos que fazer isso”, conta Calvo. Ambrossi releu o texto e ficou em choque que nunca tinham feito uma história de amor gay.
Na primeira página havia uma lista de personagens de uma peça que Lorca estava escrevendo e que nunca conseguiu terminar. “Talvez não haja nada escrito porque podemos imaginar o que poderia ter sido, se Lorca tivesse conseguido terminá-la.” disse Ambrossi.
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O amor que se transformou
O processo criativo foi ao mesmo tempo profundamente pessoal. Ao escreverem a primeira história de amor gay de suas carreiras, os dois diretores se viram escrevendo sobre si mesmos. “Começamos a pensar na nossa própria história de amor”, admite Ambrossi. Durante as filmagens, a dupla encerrou o relacionamento romântico que mantinham há anos, mas a parceria criativa sobreviveu e o amor se transformou, o que também tentaram levar para o filme.
“Quando eu era pequeno e via os filmes do Pedro Almodóvar, eu pensava: ninguém na minha família me falou sobre ser gay. Na minha escola religiosa, ninguém me falou sobre isso. Mas os filmes, a literatura, a poesia, o teatro, isso mudou o meu mundo”, disse Javier Calvo.
O cerne de La Bola Negra é o que os criadores chamam de “vergonha geracional”, uma herança psicológica da repressão que marcou a comunidade LGBTQ+ ao longo de décadas. “Estamos aqui porque muita gente lutou, porque muita gente morreu”, reflete Calvo.
O ator Milo Quifes, que é gay, coloca a questão em termos geracionais: “Tenho a sorte de que outros sangraram para que eu pudesse voar. Mas ainda hoje tive uma infância completamente diferente de alguém heterossexual. Na Espanha temos sorte comparado com outros países, mas ainda há muito caminho pela frente.”
O poeta Federico García Lorca nos cinemas
Um dos aspectos mais celebrados do filme entre o elenco e os diretores é disposição de mostrar Lorca por inteiro, não o poeta asséptico dos currículos escolares, mas o homem com desejos, com medos, com uma vida amorosa que foi silenciada junto com sua morte.
Guitarricadelafuente, do elenco, compartilhou: “Em nosso país, Lorca nunca foi tratado, por nossas gerações, de uma forma que incluísse sua vida privada. Isso vai ajudar muita gente, especialmente jovens que talvez não conheçam tanto sua obra e agora podem acessar seu mundo sabendo essa verdade sobre ele, e não ter medo do amor e do desejo”.
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Penélope Cruz, Almodóvar e Glenn Close
Penélope Cruz, que faz parte do elenco, não foi escalada e sim se ofereceu ao papel, conta Ambrossi, ainda parecendo surpreso. “Ela ligou dizendo que queria participar. Mandamos o roteiro com um papel pequeno e ela disse que topava”.
Para os diretores, a presença da maior estrela espanhola do cinema é também estratégica por trazer junto uma chance de chegar mais longe. Além disso os diretores conseguiram Glenn Close com uma personagem falando espanhol e dando ainda mais peso ao elenco.
“Ele leu o roteiro, deu notas, esteve sempre presente. É muito generoso. Ele sempre nos abençoou”, diz Ambrossi sobre Pedro Almodóvar que é coprodutor. A bênção do diretor de cinema espanhol sobre o trabalho dos Los Javis tem um peso especial, porque foi justamente Almodóvar quem, para uma geração inteira, foi a primeira janela para uma representatividade que a família e a escola jamais ofereceram, como expressaram os diretores.
RuPaul’s Drag Race e Festival de Cannes
Ambrossi e Calvo começaram como atores, escreveram uma pequena peça, montaram tudo sem dinheiro para amigos e a obra virou um fenômeno underground. De lá para cá já fizeram um longa-metragem, séries de televisão, montaram uma produtora e chegam a Competição Oficial de Cannes com seu segundo filme. “Aprendemos tudo do zero”, resume Ambrossi. “E agora estamos em competição em Cannes. É uma loucura”.
Quando alguém brinca que talvez a seleção para Cannes seja uma surpresa pelo fato de serem jurados do RuPaul’s Drag Race Espanha, Calvo responde sem hesitar: “Fomos escolhidos pelo nosso filme. Tenho certeza de que Thierry Frémaux não assiste ao Drag Race.” e ri. “Somos levados a sério pela nossa obra.”
20 minutos de aplausos
Durante os 20 minutos de aplausos, Guitarricadelafuente confessa que ficou espiando Tilda Swinton, que estava logo à sua frente, para ver como ela reagia ao filme. Para o elenco, a reação do público jovem foi o que mais emocionou. “Havia pessoas estrangeiras, não só espanhóis. Isso mostra que o filme transpassa fronteiras”, diz Guitarricadelafuente. Ambrossi e Calvo disseram que ainda não tiveram tempo de refletir meio a tantos compromissos, e esperam que o filme tenha uma boa carreira pelo mundo todo.
La Bola Negra estreou no Festival de Cannes e ainda não tem previsão de estreia no Brasil.


