InícioesporteCarlo Ancelotti tem quatro anos para reconstruir seleção - 05/07/2026 - Esporte

Carlo Ancelotti tem quatro anos para reconstruir seleção – 05/07/2026 – Esporte


“É 100% certo que não sou um gênio. Mas é 100% certo que não sou tonto”, disse Carlo Ancelotti, poucos dias atrás, à Folha. Seria mesmo necessário um trabalho de gênio para levar o Brasil ao título da Copa do Mundo em meio a um cenário amplamente desfavorável. Mas, como não é tonto, o italiano já chegou aos Estados Unidos de contrato renovado até o Mundial de 2030.

A trajetória da seleção em território americano foi encerrada na tarde de domingo (5), em East Rutherford, com uma derrota para a Noruega. Eliminada nas oitavas de final, na pior campanha desde a queda na mesma etapa em 1990, a equipe verde-amarela tem quatro anos para construir bases sólidas.

No caminho para 2026, isso não foi possível. O ciclo se desenvolveu no improviso, cheio de solavancos, com quatro treinadores e quase nenhuma estabilidade. Passaram pelo comando técnico o interino Ramon Menezes, o inicialmente interino Fernando Diniz e o breve Dorival Júnior até que chegasse Ancelotti, há pouco mais de um ano.

O experiente profissional era um velho desejo de Ednaldo Rodrigues, o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) que anunciou sua contratação em 12 de maio de 2025. Catorze dias depois, coube a Samir Xaud, na posição de mandatário da confederação, conduzir a cerimônia de apresentação do vitorioso técnico.

Rodrigues foi afastado da presidência por determinação da Justiça do Rio de Janeiro, que apontou irregularidades na assinatura de um acordo que permitira sua eleição. Isolado politicamente, desistiu da luta jurídica e deixou o caminho livre para a entrada de Xaud, aclamado como candidato único –a tentativa de Reinaldo Carneiro Bastos de concorrer foi esmagada.

O novo comandante logo deixou claro que o acerto com Ancelotti estava de pé. E o italiano passou a contar com uma estrutura que não estivera à disposição de seus antecessores. Na era Rodrigues, eram frequentes as queixas relacionadas aos investimentos no time nacional, com economia em itens como garrafas de água e sacos de gelo.

“Eu sempre fui um grande crítico da desorganização, da falta de direcionamento”, disse o lateral direito Danilo, que reconheceu a melhora recente nesse sentido. “Penso que isso vá trazer muito benefício para a seleção. Hoje existe um planejamento, os atletas não têm de enfrentar situações com as quais não deveriam lidar.”

Essas frases logo foram ditas depois da estreia no Mundial, mas o articulado jogador já apontava maiores possibilidades de resultados no longo prazo do que de glórias imediatas. Para ilustrar seu ponto, usou a metáfora do bambu chinês. “Você bota a semente e tem que regar quatro, cinco anos, só construindo raiz, uma estrutura complexa. Aí, rapidamente, ele cresce muitos metros.”

O estirão não veio a tempo da Copa de 2026, e testes tiveram de ser realizados durante a própria competição. Agora, Ancelotti, com uma estabilidade no cargo assegurada antes do embarque à América do Norte –e, de longe, o maior salário entre todos os treinadores de seleção do planeta–, procura cultivar algo mais firme, com uma necessária e inevitável renovação.

Em seu início no Brasil, Carletto procurou se apoiar em velhos conhecidos –caso do volante Casemiro, que, aos 34 anos, mostrou enorme dificuldade em acompanhar o ritmo dos jogos. A convocação de Neymar, também de 34, que se apresentou lesionado –e teve sua verdadeira situação clínica revelada só depois–, soou mais como resposta a apelos diversos do que uma opção técnica.

A camisa 10, enfim, passará a ter outro dono, Vinicius Junior, e a equipe ganhará nova forma. A transformação, na prática, já começou, com a incorporação de jovens como o atacante Rayan, 19, que assumiu com desenvoltura a vaga do lesionado Raphinha. Nomes como Estêvão, 19, Endrick, 19, e Rodrygo, 25, adiantou o técnico, estarão nos planos.

Com mais tempo e conhecimento do futebol brasileiro, Ancelotti espera cometer menos erros do que os vistos na convocação para a Copa de 2026. Neymar à parte, só a aura vitoriosa do italiano o livrou de maiores críticas sobre, por exemplo, o grupo de 26 jogadores não ter ninguém que atua como lateral direito em seu clube. Ou sobre a exótica inclusão do centroavante Igor Thiago na lista.

O treinador não é tonto. E teve boas desculpas para o fracasso no improviso. Não tem mais.



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