Quem hoje, segundo essa percepção fundamentalista, encarna o mal?
Ed René Kivitz – A gente está assistindo ao debate do papa Leão 14 com o movimento ultratradicionalista, que é a versão católica do que acontece no mundo evangélico. O que é que revolta a sociedade brasileira conservadora? A quebra das hierarquias. O homem vale mais que a mulher, o branco do que o negro, o urbano do que o indígena, o magro do que o gordo, o hétero do que o homo. E aí, quando os diferentes do padrão reivindicam acesso aos mesmos direitos, os fundamentalistas dizem que isso é promover a desordem da ordem que Deus estabeleceu.
No seu novo livro, o sr. diz que o Brasil está cada vez mais evangélico e cada vez mais longe do Evangelho. Como o fundamentalismo pode ser derrotado?
Ed René Kivitz – Existe trânsito religioso, mas não uma revolução ética. Deixo de ser católico e me torno evangélico, mas continuo corrupto, pedófilo, adúltero, machista, violento. Por isso digo sobre se tornar cada vez mais evangélico, mas continuar operando com a mesma lógica anterior, de uma religião hegemônica, imperialista, que continua sendo uma religião da culpa, da ganância, uma experiência individualista em que Deus vai alavancar o meu sucesso. Não existe revolução ética no sentido de compreender noções como solidariedade e compaixão.
O sr. tem notado as igrejas mais fechadas a vozes não alinhadas ao bolsonarismo?
Ed René Kivitz – Bolsonaro tende a cair no ostracismo. O bolsonarismo precisa de um outro ícone. Estão procurando.


