InícioesporteAs camisas mais icônicas de todas as Copas - 02/06/2026 - Esporte

As camisas mais icônicas de todas as Copas – 02/06/2026 – Esporte


Há quem diga que a vida pode ser contada em Copas do Mundo. Edições que chegam de quatro em quatro anos e acabam marcando fases inteiras da vida, da infância encantada à adolescência, e daí em diante. Ficam as lembranças das seleções favoritas, dos ídolos do futebol e das camisas icônicas que eles vestiam.

É dessas camisas que vamos falar aqui. Uniformes que carregam histórias. Peças que atravessam gerações. Mas o que faz uma camisa permanecer tão viva na memória do futebol?

Matthew Wolff ganhou projeção mundial com as camisas da Nigéria na Copa de 2018, que rapidamente viraram febre, e também com os uniformes da França campeã daquele Mundial.

O designer americano já assinou uniformes do time francês PSG (Paris Saint-Germain), de equipes da Major League Soccer e da National Women’s Soccer League, além do Vermont Green, clube que ajudou a criar na United Soccer League. Ou seja, conhece esse universo de perto.

“A maioria das minhas camisas favoritas de futebol vem da infância, dos anos 1990 e do começo dos anos 2000”, diz Wolff. “É aquela fase em que os jogadores parecem super-heróis e os uniformes têm aquela aura mágica.”

México em 1998, EUA em 1994, Alemanha em 1990 e 1994, Japão em 1998, a coleção da Nike de 2002 e até a camisa sem mangas de Camarões naquele ano. Esses uniformes ficaram marcados na minha memória porque, quando eu era menino, pareciam enormes, grandiosos. […] Uma camisa se torna icônica também por causa da história vivida dentro de campo. E o tempo acaba mudando a maneira como enxergamos e valorizamos um uniforme de futebol.”

Wolff, no entanto, acha que hoje em dia é muito mais difícil uma camisa alcançar o status de “icônica”.

“O cenário mudou, e o mercado global ficou saturado”, diz.

“Há times demais e lançamentos demais, tanto de clubes quanto de seleções, o que torna realmente difícil uma camisa conseguir se destacar. […] Por um lado, é interessante ver a cultura e a identidade visual de diferentes países aparecerem no design dos uniformes. Mas isso também faz surgir discussões sobre consumismo, sobre até que ponto existe ali uma expressão cultural autêntica ou apenas mais um produto seguindo o ritmo acelerado da indústria.”

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Com isso em mente, é hora de olhar para trás. E toda lembrança de camisas de futebol costuma vir carregada de nostalgia, aquelas memórias meio enevoadas da infância vistas através de um filtro dourado.

Seria fácil mergulhar de vez na explosão de estampas e modelagens largas dos anos 1990 e começo dos anos 2000, ou nos uniformes do fim dos anos 1980 que acabaram voltando à moda como peças casuais.

Mas, para evitar que esta lista vire um desfile de roupa de festival ou visual de pai na porta da escola no primeiro dia de calor, definimos algumas regras: apenas uma camisa por Copa do Mundo e uma por país.

10. Camarões (uniforme principal), 2002

Essa escolha é controversa: a camisa nem chegou a ser usada em uma Copa do Mundo. Talvez seja justamente por isso que ela tenha se tornado tão marcante.

O time de Camarões estreou o modelo sem mangas na Copa Africana de Nações, mas a Fifa não permitiu que o uniforme fosse mantido para o Mundial de 2002.

“Todo mundo na África queria aquela camisa”, relembrou o ex-meio-campista Eric Djemba-Djemba em entrevista à BBC Sport Africa.

O impacto ultrapassou o futebol. Naquele mesmo verão, a tenista Serena Williams apareceu em Roland Garros com um look inspirado no uniforme banido —embora os organizadores tenham rejeitado o pedido para incluir nas costas seu número da sorte, o 26.

Quando a Copa do Mundo começou, no Japão e na Coreia do Sul, a Puma já havia sido obrigada a modificar o modelo e acrescentar mangas.

Mas essa não seria a última vez que os uniformes de Camarões provocariam atritos com a Fifa. Dois anos depois, a entidade também vetou um modelo inteiriço criado pela seleção, em que camisa e shorts formavam uma única peça.

9. Inglaterra (uniforme reserva ou de visitante), 1966

Uma camisa impossível de confundir —e que certamente vai aparecer em churrascos e mesas ao ar livre de pubs por toda a Inglaterra neste verão.

A camisa vermelha dos três leões da seleção inglesa se tornou icônica pelo que representa: o único título mundial do país, conquistado em casa no estádio de Wembley, com o histórico hat-trick (quando um jogador marca três gols na mesma partida) de Geoff Hurst e o gol que até hoje gera debate sobre ter cruzado ou não a linha.

A imagem que vem à cabeça imediatamente é a de Bobby Moore erguendo a taça Jules Rimet nos ombros dos companheiros.

8. França (uniforme principal), 1982

“Foi o jogo mais bonito da minha vida. Nenhum filme ou peça conseguiria reproduzir tantas emoções e contradições. Tinha tudo. Foi extraordinário”, disse o capitão francês Michel Platini ao relembrar a derrota da França para a Alemanha Ocidental na semifinal da Copa de 1982.

A partida entrou para a história por vários motivos: a entrada brutal do goleiro Harald Schumacher em Patrick Battiston, o empate em 3 a 3 depois da prorrogação e a primeira disputa de pênaltis da história das Copas.

No calor sufocante de Sevilha (Espanha), a França parecia elegante sem fazer esforço, e aquela camisa azul ajudou a transformar o uniforme em um clássico eterno.

7. Holanda (uniforme principal), 1974

Rebelde, obstinado e naturalmente carismático. Johan Cruyff virou o grande símbolo da revolução do “Futebol Total” da Holanda.

Quando chegou à Copa de 1974, Cruyff já havia conquistado três Copas dos Campeões da Europa com o Ajax e vencido duas vezes a Bola de Ouro. Mas foi naquele Mundial que protagonizou o momento mais famoso de sua carreira.

O “giro de Cruyff” nasceu na partida em que a Holanda enfrentou a Suécia, em Dortmund (Alemanha). Naquele jogo, ele entrou em campo com uma camisa diferente da dos companheiros, que exibiam as tradicionais três listras da Adidas nas mangas.

Cruyff era patrocinado pela Puma e já se recusava a usar chuteiras da concorrente. Depois de uma disputa entre marcas, jogadores e dirigentes da federação holandesa, ficou decidido que sua camisa teria apenas duas listras.

“A federação assinou contrato com a Adidas sem consultar os jogadores”, escreveu Cruyff em sua autobiografia. “Eles acharam que não precisavam perguntar porque a camisa era deles. Mas eu respondi: ‘Quem está dentro dela sou eu’.”

6. Croácia (uniforme principal), 1998

Davor Suker, Copa de 1998 na França, vestindo os famosos quadriculados vermelhos e brancos espalhados pelos ombros. Imponente. O desenho reproduzia o brasão nacional da Croácia e fazia a seleção ser reconhecida imediatamente em campo.

A Croácia já havia impressionado na Eurocopa de 1996, e também usava um belo uniforme naquele torneio, mas a Copa de 1998 carregava um significado especial para o país: era o primeiro Mundial disputado desde a independência, declarada sete anos antes.

Suker, ao lado de nomes como Robert Jarni, Zvonimir Boban e Robert Prosinecki, levou a Croácia até a semifinal. Contra a anfitriã França, o atacante do Real Madrid abriu o placar antes da virada comandada por Lilian Thuram.

Depois, usando um igualmente marcante uniforme azul, a Croácia derrotou a Holanda e terminou a Copa em terceiro lugar.

5. Nigéria (uniforme principal), 2018

A camisa da Nigéria na Copa de 2018 virou um fenômeno raro: tornou-se instantaneamente icônica não pelo desempenho da seleção em campo, mas pelo impacto que teve na cultura pop e no universo da moda.

Três milhões de pessoas reservaram o uniforme antes mesmo do lançamento, e filas se formaram na porta da principal loja da Nike em Londres no dia da estreia nas vendas.

“A gente buscou referências na própria história dos uniformes da Nigéria”, conta o designer Matthew Wolff. “A camisa de 2002 serviu de inspiração, eu queria trazer de volta aquele verde tão marcante. E também olhamos bastante para o uniforme de 1994 e 1995.”

“A ideia não era inventar algo totalmente novo, mas trabalhar elementos que já existiam na identidade futebolística do país.”

Segundo Wolff, o timing também ajudou. “A Nigéria vivia um momento de enorme projeção cultural na moda, na música, na arte, na poesia e no cinema. O uniforme apareceu exatamente no meio disso tudo.”

E acrescenta: “O mérito é de toda a equipe da Nike que participou do projeto. Uma camisa não vira fenômeno por causa de um único designer. Isso acontece quando muita gente faz um trabalho cuidadoso e bem pensado.”

4. Brasil (uniforme principal), 1970

Talvez nenhuma seleção esteja tão ligada a uma cor quanto o Brasil ao amarelo.

Mesmo nas imagens antigas e granuladas, as camisas amarelo-canário de 1970 continuam vibrantes e marcantes. Elas eram perfeitas para um time que encantava o mundo sob o sol do México.

Pelé, Carlos Alberto, Rivellino, Jairzinho. As imagens daquela seleção reaparecem a cada Copa do Mundo e ajudam a eternizar a vitória sobre a Itália no estádio Azteca, no México.

No centro dessa memória está justamente a simplicidade da camisa brasileira, um uniforme que acabou se transformando em símbolo permanente do futebol.

3. Estados Unidos (uniforme reserva ou de visitante), 1994

“Fora dos Estados Unidos, muita gente olhava para aquela Copa com desconfiança. Havia quem perguntasse como um país sem tradição no futebol poderia organizar um Mundial”, lembra Alan Rothenberg, ex-presidente da federação americana, sobre a escolha dos EUA para sediar o Mundial de 1994.

Por isso, quando a Adidas apresentou os uniformes da Copa de 1994, Alexi Lalas e seus companheiros acharam que aquilo só podia ser brincadeira.

O que os jogadores, muitos deles vinculados diretamente à federação americana, e não a clubes profissionais, mais queriam evitar era virar motivo de piada.

Mas, quando a Adidas revelou os uniformes do torneio, o zagueiro Alexi Lalas e seus companheiros acharam que aquilo só podia ser uma pegadinha.

As estrelas gigantes espalhadas sobre um fundo que imitava jeans desbotado eram a cara dos EUA, mas pareciam exageradas demais para o futebol. A equipe temia virar motivo de chacota. Pelo menos uma proposta ainda mais ousada, inspirada em estampas tie-dye, nunca saiu do papel.

Com o tempo a camisa virou um clássico, adorada tanto pelos jogadores que a vestiram quanto pelos torcedores que idolatravam aquela seleção. A campanha dos EUA naquela Copa também ajudou: a equipe foi eliminada apenas nas oitavas de final, diante do Brasil, que acabaria campeão do torneio.

Talvez a presença dessa camisa entre as três melhores tenha sido influenciada pelo fato de a Copa voltar aos EUA neste verão. Ainda assim, o Mundial de 1994 ficou marcado por uma geração de uniformes inesquecíveis.

2. Argentina (uniforme reserva ou de visitante), 1986

A vitória da Argentina sobre a Inglaterra nas quartas de final da Copa de 1986 entrou para a história por dois dos gols mais famosos de todos os tempos: a “Mão de Deus”, de Diego Maradona, e a arrancada hipnotizante em que ele atravessou o campo desde o meio-campo até marcar.

Mas a história da camisa usada pelos argentinos naquele jogo é quase tão memorável quanto a partida.

A Fifa determinou que a Argentina teria de usar seu uniforme reserva azul-escuro para evitar confusão com a camisa branca da Inglaterra. Mas, em uma vitória anterior sobre o Uruguai, os jogadores reclamaram que o modelo era pesado e abafado demais para o calor sufocante do México.

Como a fornecedora Le Coq Sportif não tinha outra opção disponível, conta a história que o técnico Carlos Bilardo enviou integrantes da comissão técnica ao bairro de Tepito, na Cidade do México, famoso pelo comércio de produtos falsificados, para procurar novas camisas.

Conta-se que Maradona deu a palavra final sobre os modelos escolhidos e soltou uma frase que acabou entrando para a história:

“Que linda essa camisa, Carlos. Com ela vamos vencer os ingleses.”

Nas 24 horas antes da partida, funcionários da seleção passaram a madrugada costurando números e o escudo argentino nas camisas.

Trinta e seis anos depois, o meio-campista inglês Steve Hodge colocou em leilão a camisa que trocou com Maradona naquele jogo. Ela foi vendida por 7,1 milhões de libras (cerca de R$ 48 milhões).

1. Alemanha Ocidental (uniforme principal), 1990

No topo da lista está um clássico do design esportivo: a camisa da Alemanha Ocidental na Copa de 1990, cobiçada por colecionadores e frequentemente apontada como precursora de uma nova geração de uniformes de futebol.

“É preciso olhar para ela dentro do contexto da época. Até então, as camisas costumavam ser bem simples”, explicou John Blair, autor do livro A Culture of Kits (A Cultura dos Uniformes, em tradução livre), ao programa Sporting Witness, do Serviço Mundial da BBC.

“Ela reuniu várias coisas ao mesmo tempo: um visual realmente marcante para aquele período, uma seleção campeã e talvez o primeiro grande momento em que um design mais expressivo ganhou protagonismo.”

A camisa, no entanto, quase foi deixada de lado antes da Copa. Ela havia estreado na Eurocopa de 1988, quando a Alemanha Ocidental, anfitriã do torneio, caiu na semifinal.

A designer Ina Franzmann já trabalhava em um novo modelo quando o técnico Franz Beckenbauer interveio e pediu que a camisa original fosse mantida.

Franzmann, que também desenhava roupas de tênis para a Adidas e nem acompanhava futebol de perto, recebeu a missão de criar “uma pequena revolução” para a seleção alemã.

“Foi o próprio Horst Dassler, filho do fundador Adolf Dassler, quem sugeriu colocar mais cor no uniforme. Então fazia sentido usar as cores da Alemanha”, contou ela.

Dassler morreu em 1987 e não chegou a ver a Alemanha Ocidental conquistar a Copa nem chamar atenção na Itália em 1990. Para Franzmann, aquele momento foi importante, mas o verdadeiro reconhecimento só viria décadas depois.

“A camisa virou uma obra-prima anos mais tarde”, disse. “Tenho muito orgulho do interesse que ela desperta hoje. Todo mundo quer conhecer a história por trás dela.”

Este texto foi publicado originalmente aqui.



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