[RESUMO] Um dos grandes nomes da música brasileira, referência para diversos artistas internacionais do jazz e do hip-hop, Arthur Verocai comenta em entrevista sua formação musical, relembra a gravação de seu célebre disco de 1972, que lhe valeu a fama de ‘louco’ entre as gravadoras assombradas por sua inventividade, e dá pistas de seus novos trabalhos.
A exemplo daqueles versos de Walt Whitman, Arthur Verocai é alguém que “contém multidões”. Nele há a criança que se interessou por música escutando baião na Rádio Nacional e o moleque que aprendeu a tocar violão com Roberto Menescal, um pioneiro da bossa nova.
Há o maestro cultuado por rappers de prestígio crítico e sucesso comercial, como Tyler, the Creator e o já falecido MF Doom, e o responsável pelos arranjos de discos de artistas do quilate de Jorge Ben Jor e Ivan Lins. No meio de todas essas encarnações, é claro, há ainda o músico erudito que aprendeu a orquestrar lendo partituras de Ravel.
Em uma conversa ao telefone de mais de uma hora, abordamos temas tão diversos quanto o fato de ter sido considerado louco, após seu disco de 1972, até o estado da música popular contemporânea, aqui e lá fora. Aos 80, Verocai é um senhor sereno e autoconsciente, de humor sutil.
Uma de suas memórias musicais mais antigas é a de um disco de Luiz Bonfá, comprado por seu pai, de um “desses caras que antigamente vendiam discos de porta em porta”. Com os LPs de Baden Powell, outro preferido da família, aventurou-se em suas primeiras harmonias, tiradas de ouvido.
No início dos anos 1960, resolveu ter aula com Roberto Menescal, seu vizinho no bairro de Copacabana. “Eu era meio fanático: por violão, por bossa nova. Se tinha um cara tocando lá na esquina alguma coisa, eu ia lá ver”, explica. Com Maria Barbosa da Silva, professora do antigo Conservatório Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ), estudou harmonia tradicional e aprendeu a escrever vozes, através de exercícios exaustivos da obra de Bach.
No início da carreira, ainda como arranjador, começou com o pé direito. Trabalhou com Jorge Ben Jor na orquestração e nos arranjos de “Negro É Lindo”, de 1971. Um privilégio artístico e criativo, sobretudo para um iniciante. “O Jorge Ben foi um dos meus primeiros arranjos. Foi ótimo. Adorei. Porque eu ainda estava começando, e já pegando o disco do Jorge Ben, que é um puta cara, mano. Fantástico, um talento nato.”
Arthur Verocai vai de Jorge Ben Jor ao hip-hop em um pulo, quase no mesmo fôlego. A popularidade internacional crescente, iniciada no começo dos anos 2000 nos EUA, o tornou objeto de idolatria de produtores cultuados como Otis Jackson Jr., mais conhecido como Madlib.
O encontro entre os dois ocorreu num desfile da marca Louis Vuitton, que contou com uma trilha orquestrada composta pelo maestro, desejo antigo de Virgil Abloh, diretor artístico da empresa, morto em 2021. “O Madlib não fala, cara. Ele só fica fazendo com a mão aquele gesto assim pra baixo: levanta o braço e fica com o dedo para baixo, assim, sabe? Ele ficou fazendo assim e não falou nada. Ele ficou lá rindo, aquele negócio. Eu não entendi.”
Quando menciona colaborações com artistas das novas gerações, não vacila em reconhecer sua própria influência. Por exemplo, sobre o grupo canadense de jazz BadBadNotGood, dispara: “Eu sou o ídolo deles”.
Verocai é muito mais atento ao seu cânone particular, ao seu quadro pessoal de influências, do que à produção musical contemporânea. “Não acompanho nada. Eu quase não ouço música, cara. Quando eu quero ouvir, eu ouço Villa-Lobos, Miles Davis, o Wes Montgomery. Então esses caras medalhões é que eu curtia mais, sabe? Esses modernos assim eu não tenho muito acesso.”
O que é uma afirmação curiosa, porque a sua lista de colaborações com artistas contemporâneos é extensa e significativa. Sem parar para pensar muito, podemos citar a parceria com o Hiatus Kaiyote, por exemplo, uma banda australiana de jazz/funk formada em 2011.
Assim que o grupo conheceu a obra de Verocai, encantou-se no mesmo instante e logo cavou uma vinda ao Brasil. Quando finalmente entraram todos em estúdio, banda e maestro, gravaram uma sessão de metais e outra de cordas. Assim que finalizaram a gravação, todos estavam chorando, abraçados em gratidão. Verocai esclarece: “Esse conjunto, a tal da Beyoncé adora eles. Adora andar por aí cantando, entendeu?”.
Aproveito a deixa para perguntar se ele, por acaso, acompanha algum artista do cenário pop. Quem sabe a própria Beyoncé? Do outro lado da linha ouço apenas uma respiração pausada e paciente, seguida de uma fala que oscila entre o grave e o cansado: “Quando aparece na televisão, dou uma olhadinha”.
Há, num horizonte próximo, a promessa de dois novos discos. Um pela Far Out Recordings, a gravadora britânica especializada em música brasileira, e outro mais autoral, pelo seu próprio selo.
“A Far Out tá negociando comigo. Estou quase assinando o contrato. Parece que agora vem aí.” Ao que tudo indica, o primeiro disco, pelo selo inglês, terá oito faixas instrumentais. Já sobre o segundo, Verocai é evasivo e quase não fala. Conhecendo sua obra e trajetória, as expectativas são altas.
Há mais de meio século o maestro coleciona histórias saborosas e inusitadas sobre a indústria fonográfica. O convite para gravar seu disco homônimo, de 1972, surgiu na época em que produzia Célia, sua amiga íntima e cantora brasileira de renome, falecida em 2017.
Ela o abordou e disparou: “A Continental quer fazer um disco com você”. Verocai não titubeou, entrou em estúdio munido de uma pequena orquestra, com um total de 12 violinos, 4 violas, 4 cellos, 2 trompetes, 4 flugelhorns, 1 sax tenor, 1 sax alto, 1 trombone e 2 percussionistas.
O time de músicos que o acompanhou era composto por feras como Hélio Delmiro, Robertinho Silva, Pascoal Meirelles e Maciel Maluco. “O estúdio era na Álvaro Ramos. Onde a TV Bandeirantes ficou um tempo. Não sei se ainda está lá. Era um estúdio de cinema, sabe? Que tinha um pé direito muito alto. Eu gostava muito do som daquele estúdio.” Verocai já havia gravado lá algumas vezes.
Quando Maciel, seu trombonista, chegou às 9 da manhã, Verocai o fitou firme e falou: “Olha, você vai fazer um solo hoje pro meu disco”. Recado dado, o músico se espantou e recorreu a artifícios pouco ortodoxos. O maestro conta: “Aí ele botou o trombone no estúdio e desceu lá na cantina. Tomou uns gorós lá, não sei o quê, tomou uma cachaça, ou conhaque. Eu sei que, na hora do solo, ele botou tudo pra fora, né? Um solo fantástico assim.”
Nesse disco de estreia, Arthur Verocai se permitiu criar livre de quaisquer constrangimentos formais e amarras estéticas. Sob muitos aspectos, sua abordagem musical era a de um jazzista: improvisacional e avessa às formalidades pré-fabricadas da indústria. Desde então já exibia um sotaque brasileiro inconfundível e era avesso a qualquer pasteurização de mercado.
Como nesse estúdio havia quatro canais, Verocai usava dois para fazer a base, já em estéreo, e nos outros dois, se houvesse sopros, por exemplo, aproveitava e gravava tudo junto. Só depois adicionava as cordas e a voz. “Eu era cheio de ideias. Tem uma faixa que eu botei quatro flugelhorns, fazendo um naipezinho de metais. E com uma flautinha na ponta, entendeu? Então dava aquele som de jazz, meio Bill Evans”, lembra.
Vinte anos depois, na década de 1990, Verocai se encontrou em Nova York com Dom Salvador, outro músico brasileiro famoso, com uma carreira internacional sólida e aclamada. Na época, Salvador mencionou casualmente, durante a conversa: “Pô, Verocai, o pessoal disse que você tinha ficado maluco”.
Façanhas como o solo de trombone, de quase dois minutos, feito por Maciel se assemelhavam demais às invencionices do free jazz —e serviram na época para intimidar, na verdade amedrontar, o pessoal da gravadora. No entanto, o maestro tinha apenas uma ideia fixa naquele começo dos anos 1970. “Vou botar para foder nesse disco. Vou botar minhas ideias aqui nele. Eu vou botar o que eu sinto no disco.”
Aquilo que ele sentia, no entanto, não era o que o mercado fonográfico estava sentindo. “O pessoal era muito careta. E eu gostava muito das coisas mais avançadas.” Por lado, o disco tocou fundo na inspiração de vários músicos. “O Oberdan, por exemplo. Depois [em 1976] ele fundou a Black Rio, sabe? O Nivaldo Ornelas, todos eles. O Aloísio Milanez, que tocou piano, pô, ficou amarrado no disco.”
A carreira internacional de Verocai ganhou força quando, no início dos anos 2000, seu disco de 1972 foi editado e lançado em vinil nos EUA, pela gravadora Ubiquity Records, no selo Luv N’ Haight, especializado em música negra e cultuado na cena californiana.
Os DJs começaram a samplear suas canções, e os beatmakers aproveitavam os pedaços orquestrais do disco, principalmente da música “Na Boca do Sol”. “Essa música tem uma introdução com os metais, assim, bem… [reproduz o som com a boca]. Isso aí dá um clima lá pra eles, que eles gostam. Aí ficou na moda”.
Um dos responsáveis por esses samplers e remixes foi o rapper Ludacris. No auge da popularidade, em 2008, lançou “Do The Right Thang”, uma faixa com trechos de “Na Boca do Sol”. O artista norte-americano vendeu mais de 1 milhão de cópias e transformou Verocai em seu parceiro, o que impulsionou uma busca contínua dos fãs de hip-hop pelo autor das harmonias e melodias da canção sampleada.
Quando pergunto sobre as diferenças entre trabalhar com uma gravadora como a Ubiquiti, hoje em dia, e com a Continental, na década de 1970, ele responde: “Olha, eu vou te falar sobre as duas experiências que eu tive. A Continental foi uma maravilha, porque ninguém deu palpite em nada. Ninguém se meteu em nada”. E, em seguida, fica em silêncio. Para bom entendedor, pingo é letra.


