Um álbum em que Alice Caymmi revisita o repertório do avô Dorival Caymmi pode soar óbvio —sugestão que a acompanha desde os primeiros impulsos de se tornar cantora, ainda na adolescência. Mas, nas palavras iniciais da entrevista sobre “Caymmi”, que chega às plataformas em 30 de abril, data de nascimento de Dorival, a artista indica que, sob a aparente calmaria desse mar, correm forças menos previsíveis, que desafiam qualquer leitura óbvia.
“O livro ‘Caymmi: Uma Utopia de Lugar’ [de Antonio Risério] fala dessa terra que o meu avô inventou. A partir de uma paisagem real, ele criou uma terra poética, uma utopia de lugar”, explica Alice. “Já eu passei muito tempo destruindo, indo contra. Desconstruí meu gênero, minha voz, minha sexualidade, minha afetividade, eu desconstruí tudo isso. Como se tivesse com um taco de beisebol batendo em tudo, numa sala linda. Agora quero pegar o que ficou dos destroços e quero construir a minha utopia de lugar. Conseguir ter um pouco de paz. Para isso, eu preciso de alegria. E a obra do meu avô tem muito isso.”
A mudança de direcionamento se mostra já na capa do disco, com uma Alice que, a despeito do punho erguido, aparece com um visual mais “clássico” —sobretudo se comparado com uma imagem que sempre questionou a normatividade. As fotos feitas para o álbum, na praia de Maricá, são uma representação visual do que Alice buscou sonoramente ali, ao lado do produtor Iuri Rio Branco —arranjos embebidos do calor da rítmica latina, com a presença marcante do reggae e temperos como trip-hop e guitarras havaianas.
Em meio às canções de seu avô, Alice escolheu um recorte de repertório mais afinado à sonoridade que buscava. “A obra do meu avô tem duas facetas bem marcadas: uma solar e uma muito obscura, que fala de morte. Pela primeira vez na vida, eu escolhi o sol. É estranhíssimo, eu mesma estou me estranhando muito.”
Entre as canções solares presentes no disco está “Modinha para Gabriela”, que vai de um alujá —toque para Xangô— estilizado ao reggae. Outras faixas fazem essa mesma transposição do sol da Bahia de meados do século passado para os litorais latinos de 2026. “Eu não tenho onde morar” também abraça o reggae, com uma pegada marcadamente praieira —ressignificando o “é por isso que eu moro na areia” da letra. O mesmo se dá em “O que É que a Baiana Tem”, com metais característicos do reggae —que aparecem também em “Dora”, quando Alice canta “os clarins da banda militar”.
Iuri Rio Branco foi central na concepção da utopia na qual Alice mirava. Depois de dois trabalhos juntos —um deles num single com Rachel Reis—, a cantora viu no produtor a pessoa certa para o projeto. “Entendi que o tipo de som que ele estava produzindo dialogava muito com o que eu acho que se pode fazer com a obra do vovô”, diz a cantora. “Eu sabia que ele era essa pessoa que ia chegar e falar: ‘dane-se que a Gal gravou, que fulano fez, que foi feito antes, eu vou fazer isso aqui’. Ele se joga de qualquer altura.”
Em alguns momentos era Alice que tinha receio do salto. “Eu falava: ‘Como é que a gente vai mudar essa harmonia?’. Eu ia no banheiro, lavava o rosto e falava: ‘Foda-se, fica numa boa, deixa a ideia entrar em você’. E aí eu ia esquecendo do original e ouvindo a produção até que me parecia natural. Comecei a entender que aquilo fazia sentido”.
O briefing que Alice passou a Iuri partia de uma ideia: trazer a dimensão do hip-hop e de outras sonoridades contemporâneas, mas “o mais latino-americano possível”. “A obra do meu avô, por mais que fale de um país, ela fala também do povo latino-americano. Ela segura essa identidade também”, explica a cantora, afinada com um novo sentimento de “panamericalatina” alimentado e refletido em grande medida na figura de Bad Bunny.
Quando Alice fala em “povo latino-americano”, ela não visa somente a segunda metade da expressão —importa a ela também a dimensão de “povo”. “Quero trazer o Caymmi de volta para o povo”, afirma a cantora. “Virou uma coisa de gente erudita. Não que ele não fosse erudito, mas ele tinha o desejo do popular e alcançou muita gente. E aí, em dada hora, tornou-se a alta música brasileira e aquele elitismo todo. Vamos trazer de volta para as massas o que é a música popular do Caymmi.”
Sob o olhar de Alice, cabem na música popular de Caymmi o piano à la cubana de “Morena do Mar”; a guitarra havaiana de “Dois de Fevereiro”; a salsa de “Canção da Partida”; o arranjo aéreo de “Adeus”, com acordes ecoando longos na atmosfera trip-hop; o calipso de “Maracangalha”; o medo infantil da noite decantado na pop-estranheza tensa de “Acalanto”; o acid bolero de “O Bem do Mar”.
“Canto de Obá” —oração a Xangô na qual Caymmi pede proteção para seus três filhos e sua mulher, Stella— reacende o sentido de que há, em Alice, uma linhagem. A cantora lembra que gravar essa canção foi especialmente emocionante. Porém, ela não alimenta expectativas de que seu tio Dori —ferrenho defensor da obra de Dorival e que por mais de uma vez já a criticou por suas escolhas artísticas— comente algo. “Meu tio Dori tem um pacto silencioso de não falar nada comigo sobre meu trabalho”, diz Alice. “E não acho que ele precise gostar. Não pergunto nada a ele e não espero opinião.”
A morte de Nana, a tia que era referência de cantora na família e quem a levou ao palco pela primeira vez, mexeu com Alice —que chegou a montar um show em homenagem a ela. “É claro que há a dor da perda, mas no fim acabou virando um ritual de entendimento de onde ela mora dentro de mim, e da aceitação disso: ‘Ah, é aqui que ela mora dentro de mim, aqui que eu fico parecida com ela, aqui que eu me diferencio’. Aí eu consegui mapear mais ou menos quem eu sou e quem ela é.”
O Dorival que Alice busca desenhar no disco é, portanto, profundo e cotidiano. “Sabe o que é o Caymmi hoje, filosoficamente, na minha vida? É um dia em que eu simplesmente vou à praia, saio com 2% de bateria no celular. É nessa hora que ele entra em mim, na hora que eu olho pro mar e encontro ele. É onde eu encontro essa filosofia dele que valoriza o tempo de não fazer nada. É isso que possibilita que eu seja a artista que eu sou hoje. Porque se eu ficasse em casa com o celular na mão, lendo e ouvindo o que as pessoas têm pra dizer, juro por Deus, eu não tava mais nem nesse plano.”
