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A ilusão do poder

A interdição de FHC por seus filhos é uma oportunidade para serena reflexão sobre a volatilidade do poder. Esse intelectual que teve carreira acadêmica esplendorosa e uma vida pública exitosa, aos noventa e cinco anos é considerado inapto para os atos da vida civil.

Nenhum presidente desta frágil República Federativa do Brasil tem um currículo tão expressivo. Passou grande parte de sua vida na Universidade. Aos 37 anos era catedrático de Ciência Política na USP, onde cursara a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e obtivera Mestrado, Doutorado e Livre Docência em Sociologia.

Fora Diretor-Adjunto do Instituto Latino-Americano e do Caribe de Planificação Econômica e Social, organismo vinculado à Comissão Econômica para a América Latina – CEPAL e professor de Sociologia na Universidade de Paris, em Nanterre.

Foi o regime autoritário que o levou a deixar o Brasil em 1964. Obteve habeas corpus no STM – Superior Tribunal Militar, que revogou ordem de prisão sob argumento de que incitara jovens à subversão. Venceu o concurso de cátedra em 1968, mas foi aposentado pelo Ato Institucional número 5, o famigerado AI5. A perseguição, paradoxalmente, foi o que o lançou à política.

Em 1969, juntamente com outros professores perseguidos, criou o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP e continuou a pregar a favor da democracia, de forma intercalada com cursos ministrados na França, Inglaterra e Estados Unidos. Nunca deixou de escrever em jornais, de conceder entrevistas e de lançar livros. Em breve retrospecto, só na minha modesta biblioteca encontro “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional – O negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul”, “Xadrez Internacional & Social-Democracia”, “O Mundo em Português”, diálogos com Mário Soares, “A Soma e o Resto- Um olhar sobre a vida aos 80 anos”, “Cartas a um Jovem Político”, “Relembrando o que escrevi” e “A arte da política – A História que vivi”.

Ascensão intelectual sólida e constante. Senador suplente, com a eleição de Franco Montoro para o Governo do Estado, em 1983 FHC assumiu sua cadeira no Senado. Um fato curioso é que, em 1982, estava lecionando no Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O diretor do Departamento, Robert Bellah, o convidou para assumir um posto permanente na Universidade, para substituir Jürgen Habermas, que voltava para a Alemanha. Não pode aceitar e se tornou Senador. Concorreu em 1985 à Prefeitura de São Paulo e perdeu para Jânio Quadros. Por vários motivos: a versão de que era ateu, de que não execrava a maconha, haver sentado à cadeira de Prefeito para futura publicação, caso tivesse ganho as eleições.

Como ele diz: “Vanitas vanitatum? Não, mais grave: despreparo para a aspereza da luta política. Pedágio pago por um professor catapultado à arena cheia de feras. Perdi, é o que conta. E a derrota me ajudou na futura trajetória política”. Foi reeleito Senador, virou Ministro da Fazenda em maio de 1993, no governo Itamar Franco, após impeachment de Fernando Collor.

Pretendia aceitar o Ministério das Relações Exteriores, não o da Fazenda. Mas o acaso veio pavimentar sua rota para a Presidência.

FHC menciona Celso Lafer, que lhe recordou um trecho precioso de Machado de Assis em “Esaú e Jacó”: “Conte com as circunstâncias que também são fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é uma espécie de deus avulso ao qual é preciso dar algumas ações de graças; pode ter voto decisivo na assembleia dos acontecimentos”.

Uma inteligência invulgar, uma erudição inaudita, termina vitimado por essa democrática peste que nos priva dos melhores, deixando em ação deletéria os que poderíamos chamar “os piores”.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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