Entre O Homem Elefante e Veludo Azul, que consagraria seu estilo, David Lynch assinou uma adaptação de Duna, mal-vista até por ele mesmo, mas que merece ser vista. E a notícia é boa: ele está disponível no streaming.
Quando David Lynch nos deixou, em 15 de janeiro de 2025, muitos cinéfilos de todo o mundo lamentaram sua morte e mencionaram seus favoritos na filmografia do diretor com estilo único. Cidade dos Sonhos é, obviamente, muito frequentemente citado, assim como Twin Peaks (a série e sua prequela em forma de filme), A Estrada Perdida, O Homem Elefante ou Coração Selvagem, mas há pouquíssimas menções a Império dos Sonhos (Inland Empire), seu último longa-metragem, e ainda menos à sua adaptação de Duna, lançada em 1984. Talvez porque ele mesmo não a citaria, já que a renegou.
Desde sua publicação em 1965, o romance de Frank Herbert atraiu a cobiça de Hollywood, e Alejandro Jodorowsky foi o primeiro a realmente quebrar a cabeça com sua adaptação, que no entanto deu origem a um rico documentário. Foi preciso esperar a primeira metade dos anos 80 para que um projeto fosse concretizado: determinado a surfar no sucesso de Star Wars, o produtor Dino de Laurentiis conseguiu convencer David Lynch, que vinha do sucesso de O Homem Elefante e acabara de recusar… O Retorno de Jedi.
Seduzido pelo universo de Frank Herbert e com um orçamento de 40 milhões de dólares, o cineasta confiou o papel principal ao desconhecido Kyle MacLachlan e contratou os serviços de Sting, em um papel secundário, e do grupo Toto para a trilha sonora. Mas o sonho rapidamente se transformou em pesadelo nos estúdios Churubusco (México), com técnicos desqualificados, doenças, falhas e outras demissões por falta de pagamento.
73 minutos cortados na edição: David Lynch considera Duna “seu maior fracasso”
David Lynch, ainda assim, concluiu o projeto com uma primeira montagem de 3h30, da qual setenta e três minutos foram retirados para que um filme de 2h17 chegasse às salas de cinema mundiais. Querer condensar um monumento como este em uma única obra já era muito complicado, o resultado é, sem surpresa, desequilibrado e rápido demais em sua segunda metade, focada na ascensão de Paul Atreides. A tal ponto que o cineasta não demorou a renegar o que considerou “seu maior fracasso”, especificando que não havia tido controle artístico total, muito menos o corte final (final cut).
Universal Pictures
Fortemente criticado pela imprensa e pelo público em seu lançamento, este Duna está, no entanto, longe de ser vergonhoso, e até possui um certo charme, uma estranheza e até uma loucura que, para muitos, faltam aos filmes de Denis Villeneuve, que conseguiu com sucesso dar uma segunda chance à obra de Frank Herbert com uma adaptação em duas partes, que será seguida em dezembro próximo por um terceiro volume inspirado no romance Messias de Duna.
Obviamente, só podemos sonhar com o que o filme teria sido se não tivesse sido tão encurtado, pois o que resta não carece nem de qualidade nem de estilo, apesar de um desequilíbrio evidente, mesmo para quem não leu o material original. E é por isso que ele merece muito mais do que sua produção caótica sugere.
Duna, de David Lynch, está disponível para streaming nos serviços Looke, Lionsgate+, NetMovies, Oldflix e Pluto TV.
