InícioentretenimentoYG fica brutalmente honesto em 'The Gentlemen's Club'

YG fica brutalmente honesto em ‘The Gentlemen’s Club’


O rapper criado em Compton faz uma autoanálise em nível olímpico no seu quarto álbum de estúdio

Em uma entrevista publicada na conta dele no YouTube, antes do lançamento do seu sétimo álbum, The Gentlemen’s Club, YG relembrou uma conversa com Kendrick Lamar sobre a importância do controle de qualidade. “Eu estava contando pra ele o que eu estava fazendo, tipo lançando álbuns só pra sair do contrato porque meu contrato [com a Def Jam] tava uma merda”, disse ele ao entrevistador, DJ Hed (YG agora é contratado pela 10K Projects por meio do selo 4Hunnid). “[Kendrick] foi tipo: ‘Irmão, você nunca devia fazer isso. Você tem que dar tudo de você, toda vez.'”




Foto: Scott Dudelson/Getty Images / Rolling Stone Brasil


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De fato, The Gentlemen’s Club sinaliza um foco renovado em construir narrativas com a persona Bompton distintivamente agressiva de YG. O disco evoca a fase marcante de mais de uma década atrás, quando o rapper chegou ao estrelato com o My Krazy Life (2014) e o Still Brazy (2016), ao revitalizar o tipo de perspectivas “das ruas” que a Costa Oeste produz há muito tempo, de Ice Cube ao saudoso Nipsey Hussle (que participou com YG do inesquecível hino anti-TrumpFDT“). Mas YG não emplaca um grande hit na Billboard desde “Big Bank“, de 2018. Nos últimos anos, sua música tem sido marcada por iscas de rádio cheias de carboidrato e pouca nutrição, como “Go Loko” — um número bizarro em que ele e Tyga fazem um passo arrastado com sotaques ao estilo Speedy Gonzales — e “Toxic“, que praticamente toma emprestada “Be Happy“, de Mary J. Blige, quase por completo. (Para ser justo, a colaboração “Slide“, de 2019, com H.E.R., é romântica e encantadora.) Em 2025, YG sinalizou um retorno a um trabalho menos irrelevante com “2004”, uma confissão chocante em que revela ter sido abusado sexualmente aos 14 anos por uma mulher mais velha. “Desde aquele dia, nunca mais olhei pra nada do mesmo jeito”, ele rimou. Ainda assim, é difícil não sentir que, agora, as apostas em torno da carreira dele parecem menores.

2004” e sua corajosa admissão de trauma na infância preparam o terreno para The Gentlemen’s Club. Mais do que um significante gasto de casas de strip, o álbum imagina um lugar onde homens podem se desarmar e compartilhar segredos sem julgamento. “Pense nesse clube como um lugar que homens procuram quando estão prontos pra conversar. Conversar sobre coisas que você nunca esperaria que a gente… coisas desconfortáveis”, diz um narrador sem nome perto do fim da penúltima faixa de The Gentlemen’s Club, “Insecure“. YG sabe que já não é mais aquele jovem gângster de cara limpa que surgiu nacionalmente durante a curta, porém memorável, cena do “jerkin'” em L.A., com o hit de 2010 “Toot It and Boot It“. Aos 36, ele tem uma família para sustentar e “uns milhões” guardados no cofre. Ele provavelmente é jovem demais para estar numa verdadeira “crise de meia-idade”, como afirma em certo momento. Mas ele consegue transmitir como é difícil evoluir para além da vida hedonista que levava como um astro do rap “bandido”, “com tanquinho” e um monte de mulheres para servi-lo. “Bem novinho, chapando, as drogas tomaram minha mente/O contato tomou minha mente/O clube tomou minha mente/Os Treetop Pirus e os Bloods tomaram minha mente”, ele rima em “Writing My Wrongs”, que termina com um refrão soul da cantora Ogi.

The Gentlemen’s Club abre com “Intro“, em que YG se gaba de que ainda está “firme e forte”, e “OMG“, em que ele e Pusha T se enchem de elogios liricamente. No refrão de “Kudos“, ele admite: “Kudos pra tudo que me fez/Mas ultimamente, tudo que eu não curto”. Só que, em seguida, ele solta, de um jeito estranho: “Esses caras tentando ser como um cara/Eu tô tentando ser como um branco rico com cifras.” É só isso que existe na vida de um homem negro: aspirar juntar tanto dinheiro quanto um bilionário (branco)?

Felizmente, YG não transforma The Gentlemen’s Club numa fantasia de enriquecimento. Mas o álbum demora algumas faixas para engrenar, mesmo quando ele desenvolve uma história um tanto desajeitada sobre assassinar a própria identidade dupla (“Hitman”) e sussurra sobre prazer sexual ao lado de Tyler, the Creator em “On the Low“, faixa inspirada no clássico de 2005 dos Ying Yang Twins, “Wait (The Whisper Song)“. O disco finalmente ganha tração com “We Know the Truth”, com YG respondendo, enfim, aos rumores persistentes de que teria pago pelo assassinato de Drakeo the Ruler no festival Once Upon a Time in LA, em 2021. (YG, que tinha treta com Drakeo havia anos, era co-headliner.) “Ganhei seiscentos (mil) por aquele show/Então por que eu mandaria um cara estragar isso?”, ele argumenta. “Eu vim pegar a grana, tava pra subir no palco/Aí ouvi, como vocês ouviram, que alguém levou uma facada.” Em seguida vem “Hollywood“, um som que gruda na cabeça, com balanço funk oitentista e participação da Shoreline Mafia. As duas faixas mostram YG no seu melhor: atacando os haters com paixão e sem medo de citar nomes, e depois emendando um som de “bebendo, fumando, transando” pra aliviar a tensão.

Resta ver o que os ouvintes vão achar de “Tiffany“, uma faixa narrativa que começa com um homem bêbado chamado “Chris” pegando uma “gata” no clube e levando-a para casa — só para tirar as roupas dela e descobrir que ela é trans. Produzida por Ty Dolla $ign e Damn James Royo, a batida muda de um clima noturno para algo mais leve e cômico quando YG diz “mulher trans”, como se estivesse zoando o personagem azarado que ele interpreta. A história continua com Chris planejando matar Tiffany e aparecendo na casa dela com uma arma carregada. Mas YG permite que Tiffany tenha um pouco de humanidade no fim. “Eu luto com minha identidade e com o medo de ser julgada”, ele rima, imaginando a voz desesperada dela, chorando. “Eu sou elus, eu sou elus, não sou menina, não sou ‘stud’/Eu só quero ser amada… por favor, não faz isso, eu não sou perfeita.” “Tiffany” lembra o controverso “Auntie Diaries“, de Lamar — outra faixa em que um homem negro cisgênero tenta se colocar no lugar de pessoas não binárias sem deixar de recentrar seus próprios preconceitos.

YG faz um espetáculo de lutar consigo mesmo ao longo de The Gentlemen’s Club e até mimetiza um suicídio na faixa final, “Mid Life Crisis“, enquanto o narrador sem nome diz: “O homem que ele era precisava morrer antes que o homem que ele é hoje finalmente pudesse viver.” Ainda assim, isso não significaria muito para quem ouve sem números de qualidade para curtir, como “Hollywood“, o som cheio de vibração de “Dinner Dates and Heartbreaks” e “Insecure“, um improviso com J.I.D. e Ab-Soul. YG quer nos convencer de que está se cobrando e tentando ser uma pessoa melhor. “Olhe pra dentro, foda-se o orgulho em você”, ele rima em “Hitman (Reprise)“. Mas tudo o que a gente quer é que ele continue crescendo e evoluindo como artista. The Gentlemen’s Club, com todas as suas convulsões estranhas e difíceis, é um passo animador numa direção positiva. Deve ser tudo de que ele precisa para se abraçar mais uma vez.





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