Vamos deixar o banheirão de lado por enquanto. Já falo sobre ele, porque é inevitável. Você viu, sim, o filme “Confessions II” que Madonna soltou esta semana e, se está lendo isto aqui, é porque ele ainda está na sua cabeça. Mas vamos com calma.
Aliás, vamos começar falando não de Madonna —que, diga-se, é o único assunto possível hoje no mundo pop—, mas de Courtney Love.
Artista icônica dos anos 1990, Love hoje é mais lembrada como a viúva do incomparável Kurt Cobain, líder do Nirvana, do que pelo seu legado na música à frente da banda Hole. Há quase 15 anos, conversei com ela quando passou por São Paulo.
“Eu quero ser relevante”, me dizia ela num tom sôfrego. “Se eu não for mais relevante a minha vida vai acabar”. Esse trecho daquela entrevista ensandecida, quase 40 minutos de um discurso desconexo, ainda que engraçado, foi uma das primeiras coisas que me veio à cabeça quando terminei de assistir ao “Confessions II”.
Em pouco mais de dez minutos, Madonna mostrava que, quando o assunto é relevância, mais importante do que clamar por ela é agir para não cair no esquecimento. Tipo um vídeo em que você coloca alguns dos nomes mais vibrantes da cultura pop num banheirão.
Há mais de 40 anos, Madonna consegue ser tudo isso: adorada, pontual, provocadora, ousada, inovadora, debochada e seríssima, sem deixar de ser divertida. Em essência, aqui está uma artista que é de fato relevante, desde quando em 1982, ela convocou em “Everybody”: “Venham cantar e dançar”.
De um convite efêmero, Madonna fez uma carreira. Ou ainda, uma revolução. Melhor: infinitas revoluções. “Confessions II” é a mais recente delas, e eu celebro o privilégio de ter acompanhado toda essa trajetória.
Poderíamos chamar “Confessions II” de um cartão de visitas para o álbum que será lançado em 3 de julho. Mas a última coisa de que Madonna precisa é de uma apresentação. Prefiro enxergar a obra como um pequeno manifesto que parece dizer: sim, estou aqui, estou vendo tudo e tenho algo a declarar. Ou, para parafrasear Caetano, este filme é só para dizer —e diz.
Nos dez minutos que realmente compõem “Confessions II” —a obra passa dos 13, mas sua parte final é reservada aos créditos de uma equipe “ligeiramente” ligeiramente de peso—, Madonna revê inúmeras provocações visuais e musicais que espalhou ao longo da carreira e ainda faz o favor de oferecer algumas novas.
Como sempre deixou claro ao longo dessas décadas, sua força criativa nasce das colaborações. Na música e no vídeo, ela soube cercar-se de profissionais que, em cada momento, apontavam para o que havia de mais moderno no universo pop.
E sim, ela fez isso de novo.
Vou resistir, aqui, à tentação de falar das músicas —ou melhor, das amostras das músicas que vamos ouvir em algumas semanas. Tudo me parece genial, mas isso já era esperado. O que salta aos olhos no filme “Confessions II” é a quantidade de anos-luz que Madonna está à frente de tudo o que vem sendo feito hoje.
O filme tem vários momentos que te fazem exclamar: “Eu nunca vi isso antes”. Como ela fez em “Like a Prayer”, “Justify My Love”, “Music”, “Ray of Light”, “Hung Up”, para citar apenas alguns clipes, seus fãs, o mundo todo na verdade, estava diante de uma nova explosão visual e de ideias. Todas, claro, de extrema relevância.
Das agentes que invadem um apartamento escuro com câmeras nas cabeças ao carrossel de telas que tem o cantor colombiano Feid no centro —passando por saltos mortais numa pista de dança, novos usos de uma mesa em uma coreografia e virilhas iluminadas—, Madonna oferece mais uma vez um tutorial de como não ser óbvia nem repetitiva.
É um tapa na cara de tantos artistas atuais que, com medo de perder o público e likes, preferem repetir fórmulas cansadas que deram certo anos atrás. Esses falsos ídolos se esquecem de que o que realmente conquista corações nunca é a mesmice, mas o inesperado.
O que nos traz, finalmente, ao banheirão.
Não queria falar dele logo no começo porque toda a sequência do banheirão em “Confessions II” é tão genial que quase suga todas as possibilidades de discussão sobre o resto do filme. Mas ela está lá: nossa diva, estrela, mãe, guia — escolha o papel que melhor a representa na sua vida.
E, sem um pingo de vulgaridade, Madonna joga na cara de todos a mistura perfeita de desejos secretos, glamour, deboche e da liberdade de sermos quem quisermos ser .
Madonna não está sozinha no banheirão. Do carismático João Pedro à hipnótica Gwendoline Christie; do indecifrável Richard E. Grant à icônica Kate Moss; de Arca a Sabrina; de Julia Garner —em breve, Madonna nas telas— a Lola —há 30 anos, Madonna no DNA—, nossos olhos explodem de satisfação a cada nova revelação desse bingo de celebridades convocadas pela cantora. Como diria Rita Lee, outra visionária: “um caloroso espetáculo”.
E sobretudo um alerta para nossos tempos. Ninguém aguenta mais as mesmas coisas. Nos vídeos, nas músicas, nas mensagens. O medo de ser cancelado, a vontade de agradar a qualquer preço, as provocações superficiais, as fórmulas repetidas –parem com isso tudo, por caridade.
Madonna chega para mais uma vez levantar o sarrafo. Se alguém quer levar adiante a tocha da modernidade, da inovação –ah sim, e da relevância–, é melhor dobrar a aposta no que realmente alimenta nossa alma: arte.
Disse há pouco nas minhas redes sociais e repito aqui: que honra para a minha geração —estou falando com você, sim, que já entrou na faixa dos 60 anos— ter vivido todas essas provocações de Madonna. Desde os anos 1980 somos impactados por sua inteligência e coragem. E uso “impactados” para usar uma expressão que a maioria dos usuários de rede social acha que foi inventada ontem.
Sou seu fã, seu discípulo, seu seguidor, seu aluno, seu ouvinte mais que atento e, eventualmente, como a vida me presenteou mais de uma vez, seu entrevistador. E por ter testemunhado esse arco maravilhoso de audácia e talento sou grato –somos todos, não é mesmo?– por mais este manifesto.
Mais uma vez, aceito sem condições, Madonna, o convite que você faz em “Confessions II”: “C’mon meet me on the dance floor”. E se do outro lado da pista tiver um banheirão tão incrível como esse, conte mais uma vez comigo.


