Quem foi ao show de Geraldo Azevedo, 81, no último domingo, em São Paulo, testemunhou duas horas de encontros entre gerações. A apresentação, parte da turnê “Oitentação”, foi guiada por conexões do artista pernambucano. Com a própria obra, com canções de amigos e inspirações, com a banda, convidados e o violão.
Para revisitar alguns dos sucessos de carreira de 60 anos, o artista reuniu, no Espaço Unimed, nomes de gerações mais recentes da música brasileira.
Junto de Péricles, cantou “Sétimo Céu” e “Dona da Minha Cabeça”. Ambas as canções, gravadas pela dupla no álbum “Pagode do Pericão II”, são composições de Azevedo e Fausto Nilo.
Péricles disse que Geraldo Azevedo o fez querer se dedicar ao estudo de música. “Tanto as letras, a poesia dele, como a harmonia, percorrem caminhos que podem ser levados para o samba.”
Os caminhos poéticos, harmônicos e melódicos de Azevedo também são referência para Mariana Aydar, 46, responsável por interpretar “Táxi Lunar”, composição de Alceu Valença, Zé Ramalho e Azevedo. Tida pelo pernambucano como a paulista mais nordestina que conhece, ela falou sobre participar do show.
“Geraldo foi um dos das pessoas que ajudou a construir a minha música. Estou honrada de participar desse momento.”
Em “Moça Bonita”, xote de Geraldo Azevedo com letra do poeta baiano José Carlos Capinam, o anfitrião da noite teve a companhia de Jota.pê. Nascido em Osasco, cidade vizinha de São Paulo, o cantor de 33 anos disse que estava feliz por estar junto de nomes importantes da música brasileira, como Azevedo e Lenine.
“Ser recebido por eles significa que alguma coisa certa eu devo estar fazendo. Ao mesmo tempo, é uma responsabilidade. Sinto que preciso, ainda mais, ser o melhor que eu puder. Mais responsável com a minha carreira, com quem eu sou como pessoa e como artista”, afirmou o músico.
Das canções mais populares as menos conhecidas, o show contemplou boa parte da carreira de Azevedo —de “Talismã”, escrita com Valença e gravada pela primeira vez em 1972, a “Sempre Valeu”, feita com Pippo Spera. Lançada no ano passado, a última é um frevo de agradecimento à vida e ao dom de cantar.
Houve, ainda, homenagens a outros nomes da música brasileira, como Luiz Gonzaga, que popularizou “O Cheiro de Carolina”, clássico do forró, e Ney Matogrosso, voz de “Homem com H”, que fez o público dançar.
Ao fim o show terminou com “Frevo Mulher“, de Zé Ramalho, e “Taj Mahal” , de Jorge Ben Jor, cantadas pelo anfitrião da noite e os três convidados.
Em seis décadas de música, Geraldo Azevedo teve muitos parceiros. O maior deles foi, e é, o violão. Seja nas levadas de xotes e frevos acelerados, seja no dedilhado das canções românticas, o músico tem no instrumento uma de suas marcas. O solo de “Bicho de Sete Cabeças”, por exemplo, mostra a virtude do Azevedo violonista. Acompanhado pela flauta de César Michiles, provoca gritos e aplausos do público.
Voz e violão conduzem os momentos de emoção.Trilha sonora de casamentos desde o lançamento, em 1981, “Dia Branco”, de Azevedo e Renato Rocha, é cantada por casais abraçados e fãs desacompanhados.
“Canção da Despedida”, composta em 1968 pelos Geraldos Azevedo e Vandré e vetada pela ditadura militar, dá um dos recados políticos do show. Enquanto o pernambucano interpreta a canção, o telão exibe o documento da censura.
Geraldo Azevedo chega à nona década de vida e à sétima de música cultivando encontros. A turnê “Oitentação” é mais um deles, e deve durar, segundo o artista, até virar “Noventação”. A próxima apresentação será em Brasília, dia 3 de junho. Em seguida, haverá uma pausa devido à temporada de São João. Retorna dia 11 de julho, em Belo Horizonte.


