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Caetano grava ‘Mais Simples’, canção que anos atrás trocou por ‘Sozinho’, o seu maior hit


[RESUMO] José Miguel Wisnik, que estudou piano clássico e teve trajetória musical paralelamente à vida de professor e ensaísta, lança canções antigas suas gravadas por artistas como Djavan e Caetano Veloso. Ele conta em entrevista como Caetano quase cantou ‘Mais Simples’ em show, por sugestão de sua ex-mulher Dedé. Acabou desistindo e optando por ‘Sozinho’, de Peninha, seu maior sucesso.

Crítico e ensaísta de grande relevância no debate cultural brasileiro das últimas décadas, José Miguel Wisnik também tem, como se sabe, uma face musical, como pianista clássico, que antecede a própria trajetória de professor de literatura brasileira na USP.

No início da década de 90 ele lançou seu primeiro álbum, que trazia, entre outras, a canção “Mais Simples”. Nove discos e outras tantas colaborações musicais depois, a música, que tem uma história curiosa, dá título a um EP com cinco faixas, lançado no streaming pelo autor.

Participam do projeto, que contou com o impulso do jornalista e pesquisador Claudio Leal, nomes como Caetano Veloso, Djavan e Arnaldo Antunes. Na entrevista que se segue, respondida por escrito, Wisnik comenta o EP e fala sobre o “fim da canção”, tema que levantou em 2012 em aula show com Arthur Nestrovski e Luiz Tatit.

De todos os participantes, apenas Djavan já tinha cantado e registrado a canção que está no EP, mas Caetano quase cantou “Mais Simples” certa vez num show. Poderia contar essas histórias?

Caetano quase cantou “Mais Simples” no seu show “Prenda minha”, em 1998. Ele me disse na época que a razão da escolha era, além de uma vontade dele, um pedido de Dedé, sua primeira mulher, o que tem para mim um valor inestimável.

Programou-se para cantá-la naquela parte do meio do show em que fazia alguns números solo, acompanhando-se ao violão. Contou também que pediu a Jaques Morelenbaum que preparasse uma participação de violoncelo, mas na hora de aprender constatou que a canção não era tão fácil de tocar, que “de simples não tinha nada” quando olhada mais de perto, embora parecesse e anunciasse isso no título [risos].

Preferiu substituí-la por “Sozinho”, de Peninha (pela qual tinha se entusiasmado ao ouvi-la no rádio com Sandra de Sá e depois na interpretação “arrasadora” de Tim Maia, como contava no show). As consequências foram surpreendentes, tenho certeza de que para ele mesmo: “Sozinho” levou o disco “Prenda Minha” a vender 1 milhão de exemplares, algo inédito na carreira de Caetano. Até hoje é, de longe, a sua gravação mais ouvida, simples, direta, arrebatadora e nada banal.

Eu adorava essa história, e me gabava para alguns amigos de ter atingido a marca de menos 1 milhão de discos vendidos —um recorde inigualável [risos]. Acho na verdade incrível essa cambalhota que junta as pontas mais improváveis, e pela qual “Sozinho”, pelo menos para mim, vem a ser a versão mais simples de “Mais Simples”.

Recentemente um amigo comum, o jornalista Claudio Leal, achou que era tempo de Caetano interpretar a canção, e me animou a fazer o convite, prontamente aceito. Resumindo, esse encontro demorou quase 30 anos para acontecer. Gosto de sentir que é a maturação providencial daquela promessa. Esse tempo todo fez bem a ela.

E Djavan?

Com Djavan é quase a mesma história ao avesso. Djavan conta que se apaixonou por “Pérolas aos Poucos” quando foi lançada, que a cantava em casa e com a família, e a incluiu no seu show “Vaidade”, na altura de 2004-2005. Também escolheu colocá-la no meio do show, quando a banda saía de cena, e só acompanhada pelo tecladista Renato Fonseca.

Cantá-la assim nua num espetáculo que percorreu vários países, em grandes casas de espetáculos, em meio a tantos hits dele mesmo, não deixava de ser uma alusão ao título da música: ele jogava uma pérola pouca aos muitos, fazendo dela “a pérola de todos”, como declarou carinhosamente agora.

Quando decidimos fazer o EP, quis convidá-lo a gravar a canção, mas descobrimos de repente um registro extraído da mesa de som do show ao vivo, feito na época, sem intenção profissional, mas que capta a aura daquele momento de maneira íntegra.

Resumindo, Caetano gravou agora a canção que não tinha cantado no show, e Djavan cantou no show a canção que não precisou gravar agora. Nos dois casos, “Mais Simples” e “Pérolas aos Poucos” transparecem ironicamente discretas, mas nítidas por um momento no meio do turbilhão das grandes quantidades do mercado musical. Acho que esse é um dos motivos pelos quais Caetano diz um pouco enigmaticamente que eu sou “um santo da música”.

O que te chama a atenção nas interpretações de Caetano e de Djavan?

Mais que tudo, me emociona a entrega total que se ouve em cada átimo de som, em cada sílaba. Sabemos bem o quanto o mistério de certas vozes clareia e aprofunda as canções, e o EP é sobre isso.

No caso de Caetano, as inflexões naturais dizem em cada detalhe mínimo tudo o que estão cantando, como se ultrapassassem a barreira do som e do sentido, do dizível e do indizível. É o que uma teoria semiótica chama de “grão da voz”, a fricção da música com a língua falada, roçando uma na outra.

Ouço às vezes aquelas frases que eu mesmo escrevi há 40 anos como se estivesse escutando pela primeira vez, e só entendendo agora. Tem vidas e vidas acumuladas ali. E acho que o violão de Tom Veloso encontrou uma levada rítmica que arredondou aquelas irregularidades frásicas que a canção original tem, e que talvez tenham travado Caetano naquele primeiro momento.

Já na interpretação de Djavan ouço um élan imbatível, calmo e firme, sobre o qual surfa o brilho perolado de seu timbre. Ele canta uma certeza. E faz acontecer como nunca uma peculiaridade desta canção: a palavra que se alonga além do esperado e se resolve de repente em outra, como em “o cego amor entrego ao deus…dará”. Eu diria que seu conhecido senso rítmico aplica-se não só ao corpo dançante mas, talvez mais ainda, à dança das palavras.

Como Sophie Charlotte e Renato Braz chegaram ao projeto? São duas presenças que evocam o teatro e o diretor Zé Celso, com quem você teve uma intensa e produtiva relação.

Aqui entra novamente Claudio Leal, o padrinho desse EP, em parceria com Guto Ruocco, que faz um trabalho decisivo para a parte da canção de São Paulo à qual pertenço, à frente do selo Circus.

Claudio fez a ponte com Sophie Charlotte, apresentou o projeto, e ela expressou seu desejo de cantar “Cacilda”, como atriz-cantora que é. Protagonista da novela em cartaz na Rede Globo [“Três Graças”], tendo cantado recentemente com Roberto Carlos (para continuarmos na nossa divertida dança dos contrários), quis interpretar essa canção feita para o espetáculo de Zé Celso sobre Cacilda Becker e inspirada neles.

É uma surpresa encantatória ouvi-la, junto com o violonista João Camarero, atravessar com naturalidade os meandros da melodia intrincada e, mais que isso, entregar-se a “Cacilda” como quem sai dos trilhos para sondar o ser de atriz, o misterioso e perigoso ofício de fingir (a ponto de ouvir a sua própria e bela voz como a voz de uma estranha íntima, conforme relatou).

Renato Braz também chegou pela mão de Claudio Leal. Foi ele que nos programou para fazermos juntos “Se Meu Mundo Cair” no lançamento do livro coletivo “O Devorador”, dedicado à vida e obra de Zé Celso.

Enquanto eu tocava o piano, senti o chão tremer pouco a pouco. Renato vai fazendo com que as frases flutuem oscilando sutilmente no tempo até atingir a nota da levitação (“eu que aprenda a levitar”), capaz de durar quanto tempo ele quiser, como se entrasse num estado de meditação búdica.

O que mais me impressiona é que faz isso com muita simplicidade, como se fosse normal, bem “lá em casa”, sem nenhuma afetação técnica. Gosto de dizer que ele atinge a pungência sem nenhum esforço, e que vai ao sublime como se fosse até a esquina.

Arnaldo Antunes é seu parceiro em “Átimo de Som”, que foi composta para Gal. Você poderia nos falar dessa relação com ele?

Arnaldo junta as pontas da canção de massa e da poesia de livro mais refinada talvez como ninguém, porque herdou esse trânsito já aberto pelas gerações anteriores da canção brasileira. Admiro profundamente a sua capacidade poética de dar nome e forma a questões as mais sutis e as mais difíceis, como acontece por exemplo na sua recente canção “Novo Mundo”, em que encara a fenomenologia do mal estar contemporâneo em linguagem corrente.

A nossa parceria “Átimo de Som”, que está no disco, partiu da letra dele dirigida a Gal Costa, falando justamente do mistério de certas vozes, de uma força poderosa que há nelas e que nada explica, e que se alia ao mistério da própria música, na materialidade espiritualizada de seus mínimos “átomos de ar”. Tudo o que a canção diz aplica-se também à voz do próprio Arnaldo, é claro, com seu timbre grave no qual ressoam toneladas de tons etéreos.

Em 2012 você fez uma aula show e o DVD “O Fim da Canção”, com Arthur Nestrovski e Luiz Tatit, sobre o possível esgotamento do gênero tal como se consagrou e seu deslocamento do centro do debate cultural no Brasil. Como você avaliaria essas questões hoje?

A discussão sobre o chamado “fim da canção” foi despertada por uma entrevista famosa de Chico Buarque em 2004. Chico dizia, na verdade com muita ponderação, que a canção melódica, harmônica e poética, tal como ele tinha aprendido com Tom Jobim e Vinícius de Moraes, perdera parte de sua força de atualidade para manifestações mais contundentes e de alcance social mais forte, em especial o rap paulista representado por Mano Brown e os Racionais MCs, que faziam emergir das periferias urbanas novos sujeitos donos de si, afirmativos e conscientes do seu lugar altamente problemático em meio aos tiroteios do genocídio policialesco e do banditismo. (O funk carioca entrava nesse mesmo entrelugar com uma estética praticamente oposta). A minha avaliação desse impacto passa, hoje, necessariamente, pela leitura de “A República das Milícias” e de “A Fé e o Fuzil”, ambos os livros de Bruno Paes Manso.

No mesmo momento em que a modernidade original brasileira encantava o mundo com a “promessa de felicidade” sublimada da bossa nova, de Brasília e do futebol campeão do mundo, no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, um abalo mal percebido e mal resolvido nas relações entre o rural e o urbano começava a fazer com que as grandes cidades vissem crescer ao longo dos anos o crime organizado, as milícias, a luta entre facções e o envolvimento policial muitas vezes corrupto e genocida, síndrome que vemos se alastrar hoje.

O efeito cultural disso vem à tona de maneira mais clara na cena nacional no final dos anos 1990: chegava a hora do acerto de contas da canção popular triunfante com a realidade violenta que cresceu e se expandiu por dentro das cidades brasileiras ao longo das últimas décadas do século 20 e até hoje, à qual um disco como “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MCs, dava expressão potente, no mesmo ano de “Cidade de Deus”, de Paulo Lins (1997).

Isso significava um deslocamento da canção “tal como conhecemos”, veiculada no século 20 pela rede nacional de televisão, dominada pela indústria fonográfica e regida artisticamente pela classe média, mas está muito longe de significar o fim da canção como forma por excelência da palavra cantada.

A canção passou por mutações sob o impacto do rap/funk e da música eletrônica, e ganhou novas configurações e misturas. Procurei tratar da questão, juntamente com Arthur Nestrovski, numa série produzida para o canal Arte 1 e que teve o nome de “Depois do Fim da Canção”.

Hoje, pelas redes sociais, inumeráveis variantes do rap “clássico” e do funk proliferam com enorme sucesso a perder de vista (trap, funk misturado com trap, trap com rock, drill, pagotrapp, charm, etc.), com forte influência na juventude urbana.

Em termos quantitativos nacionais, ouve-se sertanejo, pagode, funk, gospel, trap/rap. Mas a canção que chamamos muito pobremente de MPB, na falta de um nome para esse repertório que atingiu muitas vezes um expoente de qualidade artística que sobe ao infinito, está entranhada inegavelmente na memória e na sensibilidade do país, atuando como uma referência de largo espectro poético, existencial e político. Como atestam os shows recentes em estádios lotados em temporadas nacionais que pairam como reserva espiritual de sensibilidade antiautoritária (shows em que a multidão afirma um não à anistia aos golpistas).

Canções que se confirmam como a bênção de uma educação sentimental compartilhada graças à qual “toda a multidão / escuta o coração / e se torna civilização”, como augura um verso do próprio Arnaldo Antunes sobre João Gilberto.

“Anjos Tronchos”, de Caetano Veloso (2021), capta de forma impressionante a ação política hoje ostensiva das big techs, do “iluminismo sombrio” e neorreacionário do Vale do Silício e da ação de “palhaços líderes” macabros que ressuscitam “impérios já milenares / munidos de controles totais”.

Que essa canção exista é uma prova de que a canção não acabou, e do quanto ela é capaz, entre as formas artísticas, de enfrentar questões quase inabordáveis, de tão afundados que estamos nelas. Que não se perceba isso à altura dela é, por outro lado, um atestado de que a canção acabou “tal como a conhecemos”.

O podcast/livro de Mano Brown, “Mano a Mano”, por sua vez, feito de entrevistas conduzidas por esse poderoso artista e mediador/formador, ativa depoimentos e reflexões com grande abertura e vitalidade, em conversa com muitas vozes significativas. Entre elas, Djavan.

Voltando ao EP, queria acrescentar que gosto de ver como as pessoas se distribuem em suas preferências, como se apegam cada uma às diferentes interpretações, e como são ciumentas quando se apaixonam por uma, para a qual exigem exclusividade [risos].

É essa maneira natural da aproximação. Mas gosto quando acabam sentindo o conjunto do EP como uma mônada, uma unidade que participa do mesmo princípio, não fora, mas muito dentro do mundo. No lugar doloroso e luminoso em que canções semeiam “grãos de resplendor na loucura”, como diz o verso de meu parceiro Paulo Neves em “Pérolas aos Poucos”.

Cada vez emitidas por uma voz única, como as que também já cantaram essas e outras canções —Zizi Possi, muita amada por suas interpretações de “Mais Simples” e “Se Meu Mundo Cair”, Ná Ozzetti, Jussara Silveira, Monica Salmaso e Mariana de Moraes, Elza e Alaíde, Bethânia, Livia com Arthur Nestrovski, Celsim, Eveline Hecker, Marina Wisnik.



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