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Como as mulheres no rap mudam o retrato da periferia com ponto de vista feminino


O rap brasileiro surgiu nos anos 1980 sustentado por narrativas masculinas sobre crime, violência policial, ostentação e sobrevivência nas periferias. Nesse universo, as mulheres apareciam quase sempre em papéis secundários —muitas vezes sexualizadas ou reduzidas à condição de coadjuvantes em histórias contadas por homens. Ao longo das décadas, porém, elas deslocaram o centro desse discurso ao incorporar temas como machismo, relacionamentos abusivos, sexualidade e autoestima.

“Vadia mentirosa, nunca vi, deu mó faia/ espírito do mal, cão de buceta e saia” —é assim que uma mulher é retratada em “Vida Loka, Pt. 1”, canção dos Racionais MC’s lançada em 2002. Mais de uma década depois, Mano Brown reviu o trecho. Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, afirmou: “Tenho que pedir perdão e seguir para frente, não porque é conveniente, mas porque mudei meu pensamento. Não vale a pena só para rimar, falar essas coisas. Na verdade, nunca tive ódio de mulher nenhuma. A linguagem de hoje mudou”.

A canção é um exemplo entre tantos que hostilizam ou hiperssexualizam mulheres no rap. A mudança que Mano Brown admite, no entanto, não se limita à linguagem —ela acompanha uma transformação mais profunda no lugar das mulheres dentro do hip-hop.

A série “Primeiro as Damas: Mulheres no Hip-Hop“, da Netflix, mostra que, nos Estados Unidos, mulheres negras sempre foram centrais para a cultura, mas frequentemente reduzidas a objetos nas narrativas masculinas. A produção reúne ícones do rap americano como Queen Latifah, MC Lyte e Saweetie e mostra que, quando elas passaram a falar de si —especialmente sobre sexualidade—, foram rejeitadas e vistas como vulgares. A escritora e crítica cultural Brittney Cooper define a ascensão delas como mais uma manifestação de sua engenhosidade em busca de sobrevivência.

No Brasil, hoje, artistas como Ajulliacosta, Ebony, Duquesa, Tasha e Tracie e NandaTsunami ampliaram seu alcance nos últimos anos, acumulam milhões de ouvintes mensais, forte circulação nas redes, presença recorrente em festivais e disputam a visão do cotidiano periférico e da sexualidade.

Ajulliacosta diz que a força da nova geração de rappers mulheres está na diversidade de narrativas. “Cada mulher conta a sua história de um jeito, e isso é muito poderoso”, diz. “A gente teve as mulheres que vieram antes, mas eu acho que o nosso trabalho continua.”

Entre os anos 1980 e 1990, artistas como Sharylaine, Dina Di e Negra Li abriram espaço na cena. Nos anos 2010, nomes como Karol Conká e Drik Barbosa ampliaram essa presença. A geração atual herda esse caminho, mas desloca o eixo —inclusive ao entrar em embates diretos com rappers homens.

Para a pesquisadora Nerie Bento, diretora de comunicação do Museu do Hip-Hop, esse movimento não representa uma ruptura, mas a continuidade de uma disputa. “Quem validava a mulher no rap naquela época eram os homens”, diz. Hoje, segundo ela, “os homens não legitimam mais essas mulheres”.

O alcance de “P.I.T.T.Y.”, de NandaTsunami, ajuda a dimensionar esse cenário. A faixa viralizou no TikTok, levando a artista a acumular 3,6 milhões de ouvintes mensais no Spotify, com versos que combinam ironia e confronto direto: “Eu quero que se foda, alguém tinha que falar nisso/ Cês têm medo de buceta, talvez Freud explique isso”. Em outro momento, a rapper declara agir como um homem: “E se eu não quiser te dar, você não vai andar comigo”.

Ao tensionar comportamentos masculinos, NandaTsunami expõe também a reação que esse tipo de discurso ainda provoca quando vem de uma mulher. “Eu só falei umas coisinhas, tendo um rostinho bonito/ E choveu de comentário de homem com ‘mommy issues'”.

Algo semelhante fez Ebony em “Espero que me Entendam”, três anos atrás. A faixa se insere na tradição das “diss tracks” —canções de desrespeito, comuns no hip-hop— e traz citações diretas a nomes como Baco Exu do Blues, Djonga, BK’ e Filipe Ret. “Soube que o Baco disse que eu sou superestimada por ser sudestina/ Mas me botou nos melhores pra eu ver a rotina/ No início achei que era onda/ Aí ele foi e fez um feat. com a Luísa Sonza/ Porra, vida, por favor, se manca, sustenta tua banca/ Eu nem sou tua namorada e me trocou por branca”.

Agora, com “KM2 (Luxo)”, álbum lançado no mês passado, ela toma como referência a abolicionista americana Sojourner Truth e transporta seu discurso do século 19 para a atualidade. “Eu sempre pesquisei muito sobre a mulheridade negra, especialmente por ter sido adotada por um casal branco”, diz. “Se a gente não tem essa referência, acaba caindo nos estereótipos que montaram para nós.”

Com maior circulação e espaço, essas rappers não apenas criticam a posição dos homens, mas retratam temas até então invisíveis no retrato daqueles à margem da sociedade. Entram em cena também questões como o encarceramento feminino e a solidão da mulher negra.

Em “Sem Perceber”, Tasha e Tracie tratam da solidão enfrentada por mulheres no sistema prisional —tema que antes era quase exclusividade do olhar masculino, presente no que os Racionais diziam em “O Diário de um Detento”, por exemplo, ou na parceria de Dexter e Afro-X no grupo 509-E.

A história, inspirada na trajetória da mãe das artistas —que ficou presa por quase quatro anos—, afasta-se da representação recorrente do cárcere masculino. “Elas não recebem carta, não recebem visita”, diz Tasha. “Está intrínseco esse bagulho de que a mulher tem que ser guerreira e aguentar as consequências sozinha. A gente cresceu numa sociedade que permite o homem errar, e a mulher não.”

Ebony aponta que os rappers poderiam se posicionar sobre as dores femininas, mas preferem se omitir. “Esse ‘local de fala’ é uma desculpa que eles estão arrumando para não falar, porque talvez seja para esconder algo maior ainda —o despreparo, a falta de vontade, o medo. Eles estão se acovardando quando escolhem não nos ajudar a ficar vivas. Eu diria até que eles estão sendo coniventes.”

No álbum “Serena e Vênus (Lado A)”, Tasha e Tracie aprofundam uma abordagem mais intimista, marcada por experiências de vulnerabilidade, e dizem se sentir responsáveis por retratar essas vivências para outras mulheres. “A gente vem de uma realidade totalmente sem estrutura. Teve fases em que a gente foi maltratada e ouviu que não seria nada”, diz Tracie. “Sabemos o que é não ter o básico, não ter papel higiênico, não ter absorvente em casa.”

A dupla descreve suas músicas como uma tentativa de oferecer orientação: “Falar coisas que a gente queria ter ouvido”. Ebony vai no mesmo sentido ao destacar o impacto direto nas ouvintes, como se prestassem um serviço à sua audiência. “Elas se veem na gente, talvez ouçam o meu conselho antes do da mãe.”

A canção “Você Parece com Vergonha”, de Ajulliacosta, é um exemplo disso. “Bota a camisinha nesse mano que cê conheceu/ O que ele fez com a ex dele vai ser BO seu/ Essa intimidade toda foi você que permitiu/ Tá se entregando pra um mano que é igual ao outro/ Jura que você não acha que isso é repetitivo?”.

“Não tem SUS que vai te passar essa mensagem com tanta clareza”, comenta Ebony sobre o conselho de preservação sexual que a letra passa.

Já Duquesa, que recentemente se apresentou no projeto Tiny Desk Brasil acompanhada por uma banda composta exclusivamente por mulheres negras e acumulou 3,2 milhões de visualizações, é contra a separação do rap por gênero.

Em entrevista ao podcast “Mano a Mano”, de Mano Brown, a rapper disse que a divisão não ajuda em nada. “Essa coisa de colocar ‘rap feminino’ também são nomenclaturas que atrapalham. Se unir isso e falar que somos pertencentes do mesmo cenário já facilita.”

Segundo dados da plataforma de áudio Deezer, não há uma discrepância significativa de gênero entre os ouvintes das rappers. Entre o público de Ajulliacosta e Duquesa, 56% são mulheres e 44% são homens. No caso de Ebony, a divisão é de 54% de mulheres e 46% de homens, enquanto Tasha e Tracie registram 55% de mulheres e 45% de homens.

Para Eduardo Ribas, editor sênior de música e cultura na Deezer, os dados revelam que a resistência masculina em relação às rappers vem diminuindo. “Eles começaram com muita rejeição para aceitar o que estava sendo dito nas letras, de reconhecer a qualidade do trabalho delas. Era o machismo estrutural mesmo. Mas a qualidade foi tanta, e a evolução delas como artistas, que ficou meio impossível de não ouvir.”

A pesquisadora Nerie Bento diz que a potência dessas letras mora na alta capacidade de identificação entre as jovens. “Você vai em shows da Ebony, da Ajulliacosta, da Tasha e Tracie, e é lotado de mulheres —coisa que a gente não via antigamente”, diz. A plateia mudou. E, com ela, o rap também.



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