O rumor de um episódio especial de O Urso, com foco em Richie (Ebon Moss-Bachrach) e Mike (Jon Bernthal), já rolava desde que, em flashes da última temporada, vimos os dois personagens juntos em uma situação nunca mostrada. Eis que, de surpresa, antes mesmo do anúncio da data do quinto e último ano, “Gary”, um especial que nem leva o nome da série, foi lançado no Disney+. Com uma hora de duração, o capítulo especial expõe o que há de melhor na série, mas também deixa claro que o drama é o prato principal da produção.
A história do especial mostra os dois em uma de suas missões para Jimmy (Oliver Platt). Eles devem entregar uma caixa em Gary, uma cidade em Indiana — famosa por abrigar a casa da infância de Michael Jackson. Os dois partem, então, em uma road trip que, como bom episódio de O Urso, cria situações mais caóticas do que o necessário antes do final do dia.
Comandado por Christopher Storer, veterano diretor da série, e escrito pela dupla Ebon Moss-Bachrach e Jon Bernthal, que também são parceiros de palco na montagem de Um Dia de Cão, na Broadway, o episódio segue o que a série faz de melhor: explorar a humanidade, seus talentos e falhas.
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A história, um flashback — já que sabemos que Mike tirou a própria vida quando O Urso começa — apresenta ainda mais o drama sofrido pelo irmão de Carmy (Jeremy Allen White). Em profundo estado de depressão, Mike tenta se conectar com outras pessoas, mas seu estado mental não o permite. A fragilidade, muito bem construída pelo ator, conhecido por papéis físicos, como o Justiceiro da Marvel, é sempre exposta quando Mike precisa parar por poucos segundos para pensar. Quando está em contato com outros — seja ajudando a mover uma lata de lixo ou conversando com uma atendente de restaurante — vemos o lado que fez o The Beef atrair tanta gente, como cliente ou funcionário. Mas, como num estalo, assim como vemos com Donna (Jamie Lee Curtis), mãe dele e de Carmy, Michael destrói qualquer laço em poucos segundos e de forma cruel.
Já Richie segue sendo o coração da série e um personagem que sofre por tentar ser amado por todos, acabando por viver uma realidade muito mais tóxica do que merece. Seu jeito entrão, curioso e estabanado com a própria vida nunca permite que ele pare de admirar Michael. Richie quer pertencer a algum lugar e, mais uma vez, assistimos em “Gary” ao seu potencial para relações humanas, mesmo que acabe se autossabotando. Essa relação de saco de pancadas vai gerar a reação que vemos nas temporadas passadas, mas o que o episódio especial deixa em aberto é: até quando?
O Urso se tornou um dos grandes fenômenos da TV nos últimos anos por misturar uma história ágil, a curiosidade do mundo da culinária e personagens incrivelmente quebrados, amargurados e ansiosos, mas que, no fundo, buscam a mesma coisa: pertencer e perseverar. A comédia, que, sim, tem seu espaço, cada vez mais deu lugar ao drama, e isso fez com que as histórias de Carmy, Richie, Mike, Syd (Ayo Edebiri) e tantos outros ganhassem mais peso e fugissem das paredes da cozinha.
“Gary” é mais um capítulo dolorido, mas perversamente divertido de assistir em O Urso. É como olhar para uma panela de pressão pronta para explodir, mesmo sabendo que o que há dentro é um prato incrível que esperamos há algum tempo para provar.
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