Há cidades que guardam suas histórias em arquivos, livros, museus ou monumentos. Outras preferem registrá-las em algo mais próximo da vida cotidiana. Em Taubaté, no Vale do Paraíba, muitas dessas histórias foram moldadas em barro. Lá conheci o trabalho das figureiras.
Ali, há mais de um século e meio, mãos vêm transformando argila em esculturas cheias de cor e de imaginação. São figuras que lembram animais do quintal, personagens da vida simples, cenas de festas populares e presépios, saídos da memória do povo. Quem cria essas peças são as chamadas figureiras, artesãs que fizeram da cerâmica figurativa uma das marcas da cidade.
Entre as muitas figuras modeladas, duas se tornaram especialmente conhecidas: o pavão de cauda aberta e a galinha-d’angola, eles acabaram se transformando em símbolos dessa tradição popular.
Conta-se que tudo começou com Dona Maria da Conceição Frutuoso Barbosa, há mais de 150 anos. Ela trabalhava como faxineira no antigo Convento de Santa Clara. Lá, encontrou guardada uma imagem deteriorada de Nossa Senhora da Imaculada Conceição e se ofereceu para restaurá-la.
Para realizar o trabalho, buscava argila no rio Itaim. Diz a tradição que Dona Maria sofria de paralisia nas mãos, amarrava ferramentas nos punhos e utilizava a língua para dar acabamento às peças.
No convento, os frades possuíam um presépio trazido da Itália. Dona Maria decidiu fazer as imagens com a argila do rio. O resultado impressionou os religiosos e os moradores da cidade. Logo outras pessoas quiseram aprender o ofício.
Alguns artesãos dedicavam-se especialmente a modelar os animais do presépio. Foi daí que nasceu o nome figureiros.
A tradição passou de pai para filho, formando uma linhagem de artesãos que ainda hoje mantém viva essa arte.
Diferentemente da cerâmica tradicional, as peças não são queimadas em forno. Secam naturalmente ao tempo, ao longo de um dia. Em seguida vem a decoração.
As cores são vibrantes. Um azul intenso — chamado pelas próprias artesãs de “azulão” — obtida manualmente da mistura de goma-laca, álcool e pigmento azul – a internet está repleta de fotos das peças produzidas por essas artesãs
Entre todas as figuras que surgiram ao longo do tempo, o pavão acabou se tornando o emblema dessa tradição. Talvez porque reúna tudo o que essa arte tem de essencial: simplicidade, imaginação e um certo orgulho colorido que lembra as festas populares.
Hoje, o trabalho das figureiras é reconhecido como uma das mais importantes expressões da arte popular paulista. Mas, para além de títulos e reconhecimentos, o que realmente importa é que, em cada pequena escultura, permanece viva uma história: a de uma cidade que aprendeu a transformar barro em memória.
Francisco Carbonari é ex-secretário de Educação


