O Brasil “celeiro do mundo” é também o lugar em que milhões passam fome. Um dos paradoxos desta terra tão complexa como instigante. Somos um laboratório antropológico em que convivem a pré-história, o medievo, a modernidade e a contemporaneidade, tudo junto e misturado.
Outro paradoxo é o da população do País campeão na biodiversidade mundial, enfrentar a obesidade e com ela a diabetes, a hipertensão, as cardiopatias e outras consequências da má alimentação.
Quem é que já não assistiu a um pequeno filme, desses de “TikTok”, mostrando que os italianos comem pasta dia sim o outro também e são esbeltos, mais enxutos do que brasileiros, americanos, mexicanos e outros povos? É que a farinha de trigo ali cultivada e utilizada na fabricação dos pastifícios é daquele tipo que não engorda. Existe lei italiana para isso. Já aqui, o excesso legislativo só existe para infernizar a vida cidadã. Por isso é que se registra um acelerado e intensificado êxodo de indústrias que vão fabricar no Paraguai e Bolívia e exportar para o Brasil.
Mas voltemos à alimentação. Faleceu recentemente, aos 21 de maio último, o italiano Carlo Petrini (1949-2026), o fundador do movimento Slow Food. Ele disseminou a ideia de que o ultraprocessado é um equívoco letal. Os alimentos precisam ser muito bem escolhidos. Se possível, plantados, cuidados e colhidos por quem vai consumi-los.
As casas, antigamente, possuíam horta, pomar e jardim. Hoje, a ganância da poderosa indústria da construção civil, que só sabe trabalhar com soluções de acordo com o concreto, o aço e o vidro, não deixa um centímetro quadrado para solo, para terra, para verde. Os edifícios praticamente invadem as calçadas e tornam a cidade inteira impermeabilizada. O que faz com que as precipitações pluviométricas, irregulares e muitas vezes intensas, em virtude do cataclismo climático, não encontrem terra para se infiltrar. São forçadas a formar correntezas, enchentes, inundações e a causar mortes.
Um governo inteligente – e pode ser nas três esferas desta nossa Federação “assimétrica”, em que tudo converge para a União, como se ainda vivêssemos no Império… – defenderia a agricultura orgânica. Um cultivo sem agrotóxicos. Os países civilizados já proibiram fertilizantes e herbicidas cancerígenos. Aqui eles continuam a chegar e a sua utilização não decresceu. Falta de fiscalização, de controle, de responsabilidade.
O Slow Food é um movimento global que deveria ser estimulado em cada município, pois é na cidade que a vida humana se desenvolve. Ele defende uma alimentação saudável, sustentável e conectada com as tradições culturais. É se lembrar da receita das avós, das tias-avós, recuperar aquilo que tem sabor de infância. Surgiu contra o fast food, uma resposta industrial para a missão precipuamente humana de cozer os próprios alimentos.
Os três pilares do Slow Food são: bom, limpo e justo. Bom, significa ter alimentos frescos, saborosos, sazonais, que respeitem a história e a identidade local. Limpo, pois deve provir de agroecologia sustentável, de forma a proteger o meio ambiente e a biodiversidade. Em terceiro lugar, o alimento precisa ser justo, passível de ser adquirido a preços acessíveis aos consumidores e a assegurar remuneração digna e justa para os pequenos produtores e trabalhadores rurais.
Tudo isso pode e deve ser feito em Jundiaí, que precisa zelar por sua área rural, preservar a Serra do Japi, garantidora de microclima favorável, congregar a comunidade para recuperar receitas antigas e hoje abandonadas diante da facilidade de se adquirir um congelado em qualquer gôndola. Coragem para resistir. É para a sua própria saúde que se propõe mudança de hábitos. Deve-se comer para viver, não viver para comer!
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo


