Imagine-se à noite, caminhando nas ruas de uma cidade que você não conhece. Prédios de 4 ou 5 andares, construções antigas de tijolos vermelhos, algumas paredes com reboque e outras sem. Ruas asfaltadas estreitas, mal iluminadas com a escassa luz de um poste ou outro tornam o ambiente mal iluminado e… silencioso.
No meio desta noite fria, você, sozinho, está caminhando em um local ermo e deserto, seguindo o caminho que você acredita ser o correto para chegar a um local conhecido, a casa de um amigo. Contudo, você nunca foi até lá, está só seguindo confiante (ou quase isso) nas indicações que devem levá-lo até lá.
Entre o silêncio e o barulho leve de correntes enferrujadas de um brinquedo de balanço vazio em uma praça próxima, seu cérebro começa a ficar tenso com a “carência” de estímulos ao redor contrastada com a necessidade premente de chegar a algum lugar. Ele faz então, aquilo que faz melhor: procura se adaptar.
Parece que os sentidos se ampliam. Qualquer som fica alto, cortando o silêncio da noite. Cores e movimentos saltam aos olhos de forma que qualquer pedaço de jornal velho e amassado sendo arrastado pela brisa gelada parece um movimento de “algo” para você.
O movimento lhe desperta a atenção para as paredes, relevando o que antes não era percebido: pichações. Escritos misteriosos, símbolos rabiscados com alguma linguagem que lhe parece ameaçadora. Alguns “palavrões” ameaçadores pintados em várias camadas, uns sobre outros, leva seu sistema nervoso à conclusão de que você talvez esteja em um lugar que ofereça risco à sua segurança: “Algo não cheira bem aqui”.
Já pararam para pensar nesta expressão? Apesar de nenhum estímulo apavorante que eu criei aqui (podem relaxar) seja diretamente relacionado com o cheiro, todos a entenderam e contextualizaram: o “cheiro” é algo sutil que pode sinalizar com antecedência algo importante, como um perigo, o território que não deve ser ultrapassado sem permissão.
Trata-se de uma forma biológica de sinalização. Algo que somos capazes de deixar no ambiente com sinal que é facilmente entendido por todos que ali transitam. Em uma respiração, existe “impresso” todo “o clima de terror” que levei algumas linhas para descrever usando somente estímulos visuais e auditivos guardados na memória dos leitores.
Desta forma, várias secreções do nosso organismo que possuem cheiros característicos têm esse potencial biológico de sinalizar algo (urina, suor, secreções em partes íntimas são exemplos) e este aspecto tem que ser levado em consideração quando se tratam sintomas que as envolvam de forma recorrente: o estímulo para que ocorram não é um equívoco do corpo, mas uma resposta à uma “leitura” que o corpo faz do ambiente em que se encontra.
O sistema olfativo é um dos mais antigos e possui acesso direto ao nosso hipotálamo e diencéfalo, áreas antigas do nosso cérebro capaz de rapidamente mudar a conformação do sistema endócrino e imunitário, nos preparando para qualquer eventualidade que precisemos enfrentar… seja ela só percebida (como ruas desertas) ou reais (os perigos que elas podem esconder)
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, com formação em medicina tradicional chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica


