Se desdobramos essa história, encontramos várias explicações para isso. Uma dos principais é esta: enfiaram na nossa cabeça (e, sim, na de muitos médicos) que os lapsos de memória não sugerem uma doença, sendo naturais e esperados no processo de envelhecimento.
“O preconceito de que isso é normal da idade faz com que muitos pacientes voltem para casa sem um diagnóstico”, nota Luiz André Magno, diretor médico sênior da Lilly do Brasil, farmacêutica de origem americana que investiga a doença de Alzheimer há 35 anos e que apoiou a realização do Atlas.
O médico lamenta que, na consulta em que o problema passou em branco, não se perdeu apenas a oportunidade de diagnosticar o Alzheimer cedo, o que já representa um dano irreversível, uma vez que, para gozar dos bons resultados de novos tratamentos, os medicamentos precisam ser prescritos nas fases mais precoces. “Sabemos que muitos indivíduos nunca receberão esse diagnóstico, mesmo nas etapas mais avançadas”, afirma. “Isso não impede apenas um tratamento eficaz, mas a possibilidade de planejamento das pessoas para lidar com a situação.”
Um esclarecimento fundamental: apague do cérebro a ideia de “demência senil”, o nó fundamental desse cenário. Demência senil simplesmente não existe. Nosso cérebro, desde que em perfeitas condições de saúde, raciocinaria muito bem até em idade centenária. “O médico da atenção primária, porém, muitas vezes não tem nenhuma especialização e ainda reproduz esse conceito antiquado, esse estigma”, observa Luiz Magno.
Reforçando o que o Atlas traz à tona, o neurologista Norberto Frota, diretor científico da ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer), cita uma pesquisa feita em seu estado, onde mais de 90% das pessoas ficam sem diagnóstico. Ele aponta que, na maioria das vezes, as famílias relatam sinais de comportamentos que andam estranhando. E, mesmo assim, saem sem qualquer confirmação de que há algo de errado com o parente.
“O estigma de que o quadro é parte natural da velhice não é a única barreira”, observa Frota. “Na melhor das hipóteses, o médico da atenção primária até pode fazer alguns testes, mas o diagnóstico só pode ser confirmado com exames de imagem e de sangue, avaliados por um neurologista ou por um geriatra. Porém, nem os exames, nem esses especialistas estão disponíveis em todos os municípios, principalmente quando olhamos para os do interior”, diz ele, que batalha para estruturar essa rede de cuidado no Ceará, incluindo a realização de um curso para os profissionais de saúde.


