A inércia da população ante tantos descalabros dá a impressão de que somos imensa tribo de zumbis. Não nos rebelamos, não nos revoltamos, não exigimos compostura daqueles que têm mais do que obrigação de mantê-la e ostentá-la.
Um dos últimos estadistas vivos, FHC lamentava, tempos atrás, a ausência de lideranças reais. Indagava: “Nelson Mandela terá sido o último dessas grandes figuras com uma capacidade excepcional de convocatória?”.
Inexistem perfis que sensibilizem, que emocionem, que façam o sangue ferver na vontade de prover o Brasil de um projeto nacional, não de pequenezas e insignificâncias que só servem para enriquecer os corruptos.
O ex-presidente mantinha relações de amizade com um francês que, à época – em 2012 – tinha a idade que FHC tem hoje, em 2026: 94 anos. Seu nome era Stéphane Hessel, que escreveu um livro de apenas quarenta páginas, cujo título era: “Indignai-vos!”.
O autor invocava a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual foi um dos redatores em 1948, para denunciar situações de injustiça. Se àquela época elas já chocavam os idealistas, o que se pode dizer de hoje?
No Brasil, que é “celeiro do mundo”, há milhões que passam fome. Há milhões de analfabetos em sentido estrito, não conseguem soletrar uma palavra e outros milhões de analfabetos funcionais. São os que aparentemente alfabetizados, não sabem compor uma redação, não entendem o que leiam naquele tatibitate de quem não é afeiçoado à leitura ou à escrita.
Isso não é tudo. O saneamento básico ainda é uma promessa descumprida. Somos campeões do desmatamento e da desertificação. A educação capenga não percebe que as informações estão ao alcance de qualquer “clique”, e quando obtidas, são mais atuais, mais sedutoras, movimentadas com alta precisão, musicadas e vencem de longe o conteúdo de preleções orais que não conseguem manter a estudantada dentro da sala de aula.
Os direitos são expropriados e mercantilizados. Somos todos reféns da Inteligência Artificial, que está a serviço de quem? Descobertas tecnológicas destinadas a viabilizar o acesso aos bens da vida a todos os viventes, aprofundam o fosso que separa ricos – incluídos e miseráveis – definitivamente excluídos.
Enquanto isso, a política partidária não oferece ao Brasil um porvir confortador e esperançoso. Parece que somos condenados ao estigma de votar em quem não se confia, não se aprecia inteiramente, apenas para se ver livre daquele a quem se detesta.
Convém a quem detém o controle do sistema, que a população continue ignorante, dócil, submissa e servil. A palavra “cidadania” figura apenas no discurso. A palavra “ética” é às vezes pronunciada, mas nunca praticada. A era digital, informatizada, robotizada, ajuda a disseminar a ira, o ódio e a desinformação. A cibernética, a nanotecnologia, veio para fortalecer os mais fortes e enfraquecer os mais fracos. Por inanição de civismo e cidadania, a massa ignara é destinada a continuar a ser massa de manobra dos inescrupulosos.
É isso o que a gente precisa pensar ao votar. Em quem você confia? A quem entregaria o controle do seu patrimônio? A quem receberia no seu lar, a quem você apresentaria sua mãe (os que têm o privilégio de ainda tê-la), sua mulher, suas filhas? E o contrário também é válido se indagar às mulheres, que já são maioria em nosso Brasil.
Não percamos a capacidade de indignação! Reajamos ao medíocre marasmo geral.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo


